Historiador diz que 150 mil alemães de origem judaica engrossaram exército de Hitler

RIO – O soldado Wolfram Günther serviu em uma unidade de artilharia Wehrmacht na frente do leste, e em um só dia destruiu vários carros de combate russos, merecendo a honraria da Cruz de Ferro. O capitão Klaus von Schmeling-Diringshofen comandou centenas de homens na Polônia, onde morreu. Teve enterro com pompas. O piloto Sigfried Simsch derrubou 95 aeronaves inimigas e ganhou a medalha Cruz de Cavalheiro. Bernahrd Rogge ficou conhecido como um dos capitães mais efetivos nos ataques contra navios dos Aliados, tendo suas façanhas no comando do encouraçado Atlantis contadas até em filme.

O que esses homens têm em comum? Todos engrossaram as forças de Adolf Hitler e combateram durante a Segunda Guerra Mundial. E o surpreendente: todos tinham origem judaica, às ordens do seu pior inimigo.

De acordo com o historiador americano Bryan Mark Rigg, enquanto milhões de judeus eram mortos em campos de concentração, militares com a mesma ascendência lutavam por seus algozes nazistas. No livro, “A tragédia dos soldados judeus de Hitler”, Rigg afirma que, no mínimo, 150 mil militares alemães durante o conflito tinham origem hebraica. Muitos acabaram sendo discriminados e expulsos do Exército, diz o autor, entretanto muitos outros tiveram papel de destaque. Um deles, identificado como Milch, chegou ao posto de marechal de campo. Outro, Helmut Schmoenckel comandou o submarino U-802. Até a temida Waffen SS (organização paramilitar ligada ao Partido Nazista alemão) teve um tenente coronel de família judia, segundo os estudos de Rigg.

No livro, Rigg esclarece que a maior parte das pessoas de origem judaica que combateram pela Alemanha o fez por não ter outra alternativa de sobrevivência no regime nazista. “Sabia que tudo o que eu fazia ia contra os meus interesses e os dos meus familiares, mas o que eu poderia fazer?”, explica no livro o cabo Richard Riess.

Apesar do ódio patológico contra judeus, Hitler, por outro lado, tinha uma visão utilitária desses militares. A eliminação deles poderia esperar o fim da guerra, já que estavam sendo úteis em muitas frentes de combate. Fritz Bayerlein, que tinha um quarto do sangue judeu, chegou a ser dispensado em 1934, mas acabou reincorporado a mando de Führer, que lehe concedeu uma licença especial para continuar comandando uma divisão de blindados Panzer Lehr. Foi condecorado com a Cruz de Cavalheiro.