A evolução da ciência, desde a publicação da primeira edição de ‘A Origem das Espécies’ há exatos 150 anos atrás, permitiu comprovar e detalhar muitas das teorias propostas por Charles Darwin, mas ainda não conseguiu elucidar uma das questões mais inquietantes que derivam de sua obra: O que nos faz humanos? Se homens e chimpanzés pertencem a uma mesma família, como podem ser tão diferentes?

Parte da resposta é que não somos tão diferentes assim. Pesquisas genéticas realizadas nos últimos anos revelam que humanos e chimpanzés são ainda mais próximos do que Darwin poderia imaginar. Quando os genomas das duas espécies são colocados lado a lado, a sequência das letras de seu DNA é praticamente idêntica: quase 99% de semelhança.

Se o genoma é uma receita de bolo e os genes, seus ingredientes, a diferença entre homem e macaco pode não ser mais do que uma cereja evolutiva. Nem ratos e camundongos são tão parecidos (91% de similaridade). É a prova de que Darwin, mesmo sem saber nada de genética – porque não existia genética na sua época-, estava certo em pendurar o homem na árvore genealógica dos primatas.

Ao mesmo tempo que ajudam a responder, porém, as informações genômicas acrescentam um novo grau de complexidade à questão. Se homens e chimpanzés são quase idênticos “por dentro”, geneticamente, como podem ser tão diferentes “por fora”, em sua anatomia, comportamento e capacidade cognitiva? O que há de tão especial no 1% que diferencia as duas espécies? Quais foram as mutações essenciais que permitiram ao Homo sapiens desenvolver a destreza e a inteligência necessárias para construir cidades, escrever livros e questionar sua própria evolução?

A resposta completa parece estar pulverizada pelo genoma. A maioria dos cientistas já desistiu de encontrar um ou dois genes “mágicos” da natureza humana – algo como um “gene da inteligência” ou um “gene do bipedalismo”. Todos os indícios são de que as características fundamentais da espécie humana – assim como as de outras espécies – decorrem não de um pequeno conjunto de grandes mutações, mas de um grande conjunto de pequenas mutações acumuladas ao longo dos últimos 6 milhões de anos, desde que as linhagens de seres humanos e chimpanzés divergiram de seu ancestral comum.

“São pequenas diferença no genótipo que se somam para fazer uma grande diferença no fenótipo”, resume o pesquisador Tarjei Mikkelsen, do Instituto Broad, em Massachusetts (EUA), primeiro autor do trabalho que sequenciou o genoma do chimpanzé, em 2005.

“Essa relação de um para um, em que um gene equivale a uma característica, é muito rara”, diz o cientista Sandro de Souza, chefe do Grupo de Biologia Computacional do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, em São Paulo. A maioria das características, diz ele, tem caráter poligênico – ou seja, resulta da atividade de vários genes.

“A evolução é um processo contínuo, gradual e cumulativo”, completa o biólogo Diogo Meyer, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Não viramos seres humanos da noite para o dia; estamos fazendo isso há vários milhões de anos.”

Exposição “Darwin: Evolução para Todos”

Data: 11 de novembro de 2009 a 28 de fevereiro de 2010

Local: Museu de Zoologia da USP (Av. Nazaré, 481, Ipiranga, São Paulo/SP)

Ingresso: R$ 4,00

Informações: Tel – (11) 2065-8100 / e-mail – mz@edu.usp.br

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