Autor: Jose L. Pedroso.
Perfil no Twitter: @jlpedroso

iurdxgloboSe existe algo realmente onipresente no Brasil, é a Globo. A rede carioca interfere, em graus diferentes, na vida de toda a população do país.

Exemplos disto não faltam: quem não se lembra da edição do debate Collor X Lula? Ou quem nunca sofreu para ver um jogo de futebol que começa quase às 23h, por causa da maldita novela? A Globo está lá, mexendo os pauzinhos, mesmo se você nunca a assiste.

É claro que com o poder, vêm os problemas. Todos adoram odiar a TV Globo. Quando a Globo erra, vira hit na internet; se algum programa a ultrapassa na audiência, todos comemoram. Torcer contra a Globo é um esporte nacional, o que não deixa de ser um paradoxo, já que a emissora quase sempre tem mais de 25% de audiência.

E é aí que entram Edir Macedo, sua igreja e seu canal de televisão. Depois de anos tendo apenas Silvio Santos no seu encalço, a Globo viu o crescimento de Macedo. Com cada vez mais dinheiro, a Record foi tomando o lugar do SBT como a segunda emissora do país, até chegar ao ponto de conseguir competir, pelo menos técnica e financeiramente com a “Vênus platinada”.

Centenas de funcionários da Globo, em todos os níveis, foram contratados pela Record. A Globo, pela primeira vez, sentiu o baque de ter as transmissões de programas esportivos serem adquiridos pela Rede Record. Nada parece parar a TV do bispo.

E de onde é que vem o dinheiro das emissoras de televisão? Da venda de horário para anunciantes. A lógica do mercado é simples: quanto mais audiência, mais caro o espaço publicitário. Sendo assim, ficaria difícil para qualquer emissora brasileira competir com a Globo. Mas a Record consegue.

A Record vende a um preço astronômico, o horário mais morto da TV (as madrugadas) para programas da Igreja Universal. Com a desculpa da necessidade de ter um programa de evangelização, a IURD simplesmente repassa uma montanha de dinheiro dos fiéis para a Rede Record, o que é proibido por lei.

Sendo assim, na Rede Record o dinheiro cai do céu, literalmente. Uma instituição sem fins lucrativos, isenta de impostos, mantém uma empresa que visa ao lucro (muito lucro).

E eis que, na última semana, fomos brindados com a doce notícia de que dez membros da cúpula da IURD estavam sendo indiciados pela justiça brasileira. Lavagem de dinheiro, contas em paraísos fiscais, aquela velha ladainha já conhecida por quem acompanha o noticiário político. Na internet, a notícia saiu logo cedo: Veja, Estadão, Folha, iG, Terra, entre outros, fizeram uma ou mais matérias a respeito.

Na mesma noite, a Rede Globo fez uma matéria incisiva a respeito, o que era de se esperar, já que se trata de sua principal concorrente. Foi o que bastou para a TV do bispo, com uma cara-de-pau que beira o absurdo, começar a “guerra santa” contra a Globo.

Supostamente esquecendo que a denúncia havia sido feita pela justiça e que o indiciamento era real, o jornalismo da Record começou dizendo que a Globo mentia, em uma campanha de difamação contra Edir Macedo.

Logo, a Record passou a dizer que a Globo não perseguia apenas o pobre bispo, mas a todos os fiéis da IURD. Uma enquete no site da igreja fazia uma pergunta parecida com esta: “A Globo diz que a IURD é uma quadrilha. Você se considera um mau elemento?”. Uma falácia, onde os enganadores se colocam espertamente ao lado dos enganados, para enfrentarem juntos o “grande inimigo”.

A Globo é poderosa, e respondeu na mesma moeda. Mostrando denúncias e vídeos antigos, já esquecidos pela população. E passamos uma semana acompanhando esta briga.

Algumas pessoas imaginam que a IURD é problema apenas daqueles que os seguem. Eu não concordo… Os tentáculos da Universal estão cada vez mais estendidos, tanto dentro da mídia quanto na política.

Quanto à mídia, chega a embrulhar o estômago ver a quantidade de bons jornalistas, antigamente tidos como sérios, desfiando a ladainha pró-bispo nos jornais da Record. O dinheiro parece comprar tudo, inclusive a dignidade profissional.

No lado político, não podemos esquecer que a igreja do bispo já possui um partido (PRB, antigo PMR). E que este conta com deputados e senadores eleitos. Entre outras coisas, a bancada evangélica quer que a Lei Rouanet seja usada para patrocinar cultos religiosos. Isto é, evangelização com o TEU e o MEU dinheiro.

E alguém duvida que, em um momento de quedas na pesquisa, algum candidato à Presidência vá lá pedir a bênção do bispo? Os cultos são armas poderosas para se conseguir votos…

Hoje, a Universal é uma ameaça ao Estado laico. Talvez a maior ameaça já enfrentada pelo país.

Por tudo isto, acho que esta briga não é apenas da Globo. Eles lutam pela audiência, não estão fazendo isso por serem bonzinhos. Ainda assim, mesmo que por motivos próprios, desta vez eles estão do lado certo.

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