Fonte: Terra

Golpe da Piramide

Golpe da Piramide

A Polícia Civil de Goiânia investiga a suposta participação de pastores evangélicos em uma variação do golpe da pirâmide que usaria espaços de Igrejas para atrair fiéis para o esquema. O golpe teria origem nos Estados Unidos com o nome de Elite Activity e chegou ao Brasil em 2008, criando ramificações em seis Estados antes de chegar a Goiás há quatro meses. Pelo menos dois religiosos, um pastor e um diácono, foram presos durante as investigações.

Foram identificados religiosos suspeitos de pelo menos cinco Igrejas evangélicas: Assembléia de Deus, Luz para os Povos, Igrejas de Cristo, Chama Viva e Nas Asas do Altíssimo. Na quarta-feira foram presos o motorista Elias Pereira de Deus, pastor da Assembléia do Jardim Primavera, na região noroeste de Goiânia, e o comerciante Geraldo Alves de Carvalho, diácono do mesmo templo.

O delegado Waldir Soares de Oliveira, do 22º Distrito Policial (Jardim Curitiba), que começou a investigar o suposto esquema, disse que o inquérito foi aberto há duas semanas e é impossível agora dizer quantas pessoas podem estar envolvidas, ou mesmo quantas agiram de má-fé ou foram enganadas atraídas pela possibilidade de dinheiro fácil.

Em uma primeira etapa do esquema, a vítima seria convidada a entrar com R$ 200 e tinha de chamar mais pessoas até formar um grupo de oito. Se ela conseguisse multiplicar o número de seguidores, ao final deste ciclo conseguia R$ 1,6 mil. Depois, entrava com mais dinheiro, atraía mais pessoas e, em tese, tinha um retorno financeiro ainda maior.

Além disso, cada participante pagaria uma taxa de US$ 16 mensais a uma empresa americana, que seria a criadora do esquema. A promessa, segundo o delegado, é que era possível ganhar até R$ 580 mil, caso conseguisse participar de todos os ciclos. Para convencer o fiel a entrar, o multiplicador chega a citar trechos da bíblia.

“No começo todo mundo ganha dinheiro, mas com o tempo a base não se sustente, as pessoas param de receber dinheiro e descobrem que foram enganadas. Foi o que aconteceu aqui. Algumas pessoas que faziam parte da base da pirâmide não receberam e procuraram a polícia”, explicou Oliveira.

Em depoimento, o diácono disse que entrou no esquema para se livrar de dívidas de mais de R$ 1,7 mil mensais com remédios por causa de um derrame. Em um mês, conseguiu R$ 4 mil. Já Geraldo afirmou que entrou para ajudar Elias e quando percebeu que era um golpe já estava envolvido. Mesmo assim, conseguiu juntar R$ 2,5 mil. Só os dois teriam convencido pelo menos 300 fiéis e familiares a entrar no esquema. Os dois vão responder por estelionato, formação de quadrilha e crime contra o sistema financeiro. Eles devem permanecer detidos.

“É importante salientar que não foi comprovado a conivência destas Igrejas enquanto instituição no esquema. O que há até agora é que pastores destas Igrejas faziam isso. Se elas sabiam ou não que seus pastores agiam no esquema, não tenho como dizer agora”, disse o delegado.

No Brasil, o número de vítimas chegaria a 76 mil, segundo o delegado. “Já pedimos a ajuda da Polícia Federal, já que o golpe é aplicado em todo o País, e devemos contatar a Interpol, pois a sede da empresa que criou isso fica no Texas (no Estados Unidos)”, disse Oliveira.

Igrejas se defendem
Em nota à imprensa no começo da noite de quinta-feira, a Igreja Luz para os Povos critica o delegado por ter citado o nome das instituições, não nega o envolvimento de membros da Igreja, mas diz que nunca houve a conivência da Luz para os Povos com o esquema. Para o ministério, a polícia agiu “precipitadamente”. “O Ministério, como instituição, desaprova essa prática e se algum membro de alguma das 42 Igrejas que temos hoje em Goiânia, com mais de 30 mil pessoas, praticou esse desatino, eles serão severamente disciplinados”, afirma.

Ainda na nota, a igreja comunica que todos os pastores são “homens de conduta ilibada, irrepreensíveis e incorruptos” e que se alguns participaram do golpe, assim o fizeram “iludidos pela perspectiva de ganhar um dinheiro fácil”.

Já o presidente da Convenção do Estado de Goiás da Assembléia de Deus, pastor Oídes José do Carmo, confirmou a ligação do pastor e do diácono presos no 22º DP, mas diz que a ação deles não era de conhecimento da igreja. Ele completou dizendo que não tem conhecimento de nenhum outro pastor participando do esquema. “Nós condenamos esse tipo de golpe e acreditamos que eles possam ter sido enganados também por outras pessoas”, disse.

No site em português que divulga o esquema (www.eliteactivity.com.br), os organizadores dizem que o “Elite Activity” não é uma pirâmide, mas sim “um sistema de crenças nascido da tentativa de partilhar”. Os responsáveis ainda dizem que estavam exercitando seus “direitos individuais de dar e receber reconhecendo os princípios que regem as leis da abundância.”