Autor: Alfredo Carlos Barroco Esperança (*)
Fonte: Laicidade

 

PinóquioSó vê maldade no anti-clericalismo quem acredita na bondade do clericalismo. Séculos de origem divina do poder provam que o contubérnio entre a Igreja e o Estado é perigoso.

Outrora fizeram-se deuses a partir de humanos e animais. Hoje, a partir de humanos e de Deus, criam-se animais. Irracionais e selvagens.

As transnacionais da fé, devoradas pelo proselitismo, acabam por integrar o terrorismo na luta com que pretendem eliminar a concorrência. Alimentam-se de ódio, condicionam as consciências dos crentes e espalham a cizânia entre os homens. Todas procuraram a globalização em sistema de monopólio.

As religiões podem ser inofensivas mas o clero que as administra e promove é frequentemente perigoso. A fé, antes de ser uma ameaça global, é uma crueldade para os crentes. A concorrência e a liberdade são os seus inimigos.

 

 Estranha forma de morrer, desgraçada demência mística!

 

Todos se esforçam por demonstrar a bondade da sua crença mas ninguém admite a maldade do seu Deus e raros renunciam à violência na propagação da fé.

Um rapaz palestiniano, preso pela polícia de Israel em 1991, com as algibeiras cheias de explosivos, disse por que queria morrer assim: “Vou ver rios de mel doce e vinho sagrado, vou ter 72 esposas virgens e entradas gratuitas para o paraíso, para a minha família e amigos”.

Estranha forma de morrer, desgraçada demência mística! Não era o sabor do mel que o seduzia mas a sua antevisão; não era o vinho mas o carácter sagrado que o inebriava; não era a necessidade da fêmea que o atormentava mas o deslumbramento com a quantidade e a inútil qualidade; e, enfim, as entradas gratuitas para o paraíso, para si, família e amigos, uma espécie de passe colectivo à borla para quem carregava o insuportável ónus de ser crente, um verdadeiro inferno de que era urgente libertar-se.

 

 As religiões são um instrumento para a conquista do poder pelos funcionários de Deus

 

Os cristãos esforçam-se por explicar que a Bíblia não quer dizer o que efectivamente diz; os muçulmanos exigem que a realidade se sujeite ao que o Corão afirma. Os primeiros procuram assustar com o Inferno, os segundos seduzir com o Paraíso. Ambos defendem o sofrimento do homem para dar prazer a Deus, a renúncia à felicidade terrena para ganhar a bem-aventurança eterna, a desigualdade entre os sexos por fidelidade à palavra revelada.

O crime compensa. A hegemonia da Igreja católica em Portugal deve-se a séculos de intolerância para com outras religiões, sendo os privilégios de que goza uma forma de beneficiar o infractor. As religiões são sempre, aliás, um instrumento para a conquista do poder pelos funcionários de Deus.

Não há poder democrático que se tenha alguma vez aproximado da violência de que é capaz o que se reclama de origem divina.

O fanatismo protestante do Ulster, a agressividade primária do IRA, a demência do judaísmo ortodoxo em Israel ou o islamismo integrista do Iémen ou da Arábia Saudita são versões criminosas da fé, intoleráveis desafios à liberdade e à democracia.

 

 Só se deve matar uma pessoa se esta tiver cometido homicídio ou semeado a corrupção na Terra

 

A tragédia recente da ex-Jugoslávia ou a responsabilidade dos preconceitos racistas e anti-semitas do catolicismo na 2.ª Guerra Mundial deviam fazer-nos reflectir.

As religiões políticas fazem a síntese entre a burocracia que zela pelo cumprimento do livro (sagrado) e o algozaria que pune quem dele se afasta.

Nos EUA há Estados onde se proíbe o ensino da teoria evolucionista por colidir com o criacionismo bíblico. E isto numa democracia, no País mais poderoso do planeta.

Os líderes religiosos são excessivamente tolerantes com o fanatismo mas demasiado fanáticos com a fé. Para eles a porta do Paraíso abre-se com a chave do martírio, nem que seja preciso percorrer o caminho do crime.

De acordo com o islamismo, tal como com o judaísmo, “só se deve matar uma pessoa se esta tiver cometido homicídio ou semeado a corrupção na Terra”. Sendo fácil evitar o homicídio torna-se difícil resistir a “semear a corrupção na Terra” se os nossos princípios colidirem com os dos polícias de Deus. Assim, qualquer livre pensador arrisca a vida. Para maior glória divina!

 

 O proselitismo exclui a liberdade religiosa

 

Os actuais exegetas do Islão são violentos. O humanismo árabe da Idade Média sucumbiu às mãos de beatos exaltados. A violência totalitária dos talibãs triunfou. Todos são vítimas mas a mulher tem o quinhão mais doloroso.

O fogo do inferno é uma condenação comum ao islamismo e ao cristianismo, frequentemente antecipado por decisão eclesiástica, impaciente na sua vocação pirómana ou devoção piedosa.

O cristianismo, o judaísmo e o islamismo não se conformam com o laicismo.

O ódio que hoje se cultiva entre populações pobres e analfabetas dos países árabes tem como alvo a pretensa irreligiosidade do Ocidente. Não é pois uma luta contra uma religião, mas contra a alegada falta dela, que estes saprófitas do Corão travam.

O proselitismo exclui a liberdade religiosa. Urge erradicá-lo.

Quanto mais profunda for a separação entre a Igreja e o Estado maior será o espaço de liberdade de que usufruem os crentes e os não crentes. A secularização é um direito e o laicismo um dever que se integra na defesa dos direitos do homem.

 

 O antigo admirador de Franco subiu aos altares

 

Osama Ben Laden foi o pregador seráfico e compungido que teceu pacientemente uma espiral de violência e morte. Foi uma espécie de Prefeito duma Sagrada Congregação da Fé Islâmica que deu origem ao exótico Ministério da Promoção da Virtude e da Prevenção do Vício pelo qual zelava a polícia religiosa afegã. Perdeu-o a obsessão de levar Deus ao domicílio, a toda a parte e à força.

No Vaticano João Paulo II parece fazer a síntese do que de pior tinha a sua Polónia Natal – o estalinismo e um catolicismo arcaico. Ainda não estava esquecida a beatificação do sinistro Pio IX e já se encontra canonizado Monsenhor Escrivá de Balaguer que prestou provas de santidade com a intercessão num milagre na área da dermatologia. Com a cura da radiodermite do médico Mário Nevado Rey confirmou a preferência que em vida teve pelas classes mais favorecidas e ganhou a santidade. O antigo admirador de Franco subiu aos altares e o inquietante Opus Dei, que ele fundou, continua como instrumento da conquista do poder e do expansionismo católico.

Sem a renúncia expressa ao proselitismo e o respeito reiterado pela laicidade não haverá paz que o beatério exacerbado não possa perturbar. Se os dignitários eclesiásticos ( de todas as religiões ) não puserem na defesa dos direitos do homem um empenhamento equivalente ao do cumprimentos dos deveres a que se julgam obrigados perante Deus, não há tranquilidade nem paz duradouras.

 

A crueldade dos homens já é insuportável, pode prescindir dos rigores divinos

 

As religiões do livro baseiam-se em princípios que eram aceites no tempo em que foram criadas mas que foram postos em causa pelos princípios humanistas que se tornaram paradigma das modernas civilizações. Não é possível continuar a contemporizar com esses princípios que expõem os predicantes às sanções do código penal dos países que exigem respeito pelos direitos do homem.

Todos sabemos que a origem divina que se atribui aos livros, cujos princípios se tornaram obsoletos, dificulta a sua revisão mas, ao menos, que os funcionários religiosos reformem a interpretação. A crueldade dos homens já é insuportável, pode prescindir dos rigores divinos.

Os valores humanistas de que nos reclamamos não podem ser postergados no pântano da fé e do proselitismo que alimenta os facínoras de Deus.

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Alfredo Carlos Barroco Esperança é presidente da Associação Ateísta Portuguesa