Autor: Fabrício “Pudoca”

Maurice, um agnóstico?

Maurice, um agnóstico?

Um dos segredos do sucesso da nova safra de animações, inaugurada pela Pixar com Toy Story é, sem dúvida, esconder pequenas referências à cultura pop, a eventos históricos e até a outros filmes, funcionando em camadas.

Enquanto a criançada se diverte, os pais deliciam-se com as referências que só eles entendem. Madagascar tem a mais ousada que já encontrei.

Não nos interessa todo o enredo, apenas o contexto onde está a referência: após os rios e lagos da reserva ambiental africana (onde se passa a história) terem secado, os dois personagens mais hilários do filme surgem com um plano para reverter a situação.

Eles são o Rei Julien (um lêmure déspota carismático e divertido) e seu “primeiro-ministro” Maurice (um aye-aye – primata da família Daubentoniidae), ambos fugitivos da ilha de Madagascar. O rei explica o único meio para conseguir a água de volta: oferecer um animal aos deuses jogando-o em um vulcão (todos os animais tem características igualmente humanas, portanto o apelo dramático é o de um sacrifício humano).

O Rei ainda oportunamente reserva para si algum poder por fazer tal intermediação: os deuses darão a água a ele, e ELE a entregará aos demais.

Quando questionado sobre a possibilidade de sucesso, ele recorre à ajuda de Maurice que, embaraçado, responde “meio a meio” (“fifty-fifty” na dublagem original – indicando que as chances se sucesso ou fracasso são iguais, de 50% cada):

 

O  buldogue de Darwin

O embaraço e a resposta de Maurice remete à postura de T.H. Huxley (não encontrei nada na internet que confirmasse a intencionalidade dos roteiristas). Huxley, também conhecido como “o buldogue de Darwin”, foi um biólogo britânico, colega e defensor ferrenho do famoso naturalista, além de ser o inventor do termo “agnosticismo“.

Talvez ele o usasse para proteger as idéias revolucionárias de Darwin dos ataques ferozes da sociedade britânica, estarrecida com as implicações da nova teoria em Origem das Espécies. Seu termo não designava uma crença, e sim um método; não havia forma de provar ou contra-provar deus, e se a agnose era sinônimo de ausência de crença, também era de ausência de crença negativa (o leitor pode escolher a ordem dessas afirmativas, alterando sua ênfase).

Mas o que Huxley talvez não tivesse previsto é que seu novo agnosticismo desconsiderava o problema da probabilidade que envolve a questão. Uma vez apropriado de maneira indevida e desonesta, o termo automaticamente eleva qualquer hipótese infalseável ao enganoso 50/50.

Assim, ele adquire uma maleabilidade bandida, que não expressa o método que leva o homem munido de razão ao ateísmo, mas sim a covardia que outros tenham em assumir a responsabilidade de encarar de frente o mundo sem deus.

Muitas outras coisas são infalseáveis, e nem por isso nos declaramos agnóstico acerca delas. Alguém pode honestamente se dizer agnóstico frente ao bule voador de Russel, sem cair no ridículo?

Ao trazer a probabilidade 50/50 sobre o sucesso do sacrifício, Madagascar quer arrancar risos. Como? Despedaçando um padrão mental, com algo inusitado e absurdo: é assim que se faz humor. Mas por quê não rimos quando os mesmos 50/50 são entregues gratuitamente à hipótese de deus? De onde vêm esse respeito, que certamente não atribuímos ao bule de Russel ou ao Rei Julien? 

O agnosticismo hoje

Os tempos são outros. Quando Huxley criou o termo havia uma necessidade de “recuar” um ponto para favorecer outro(s) frente a sociedade científica. Assim como Maurice recuou para evitar atrito com seu rei. Ser agnóstico então seria uma questão da mais pura polidez científico-vitoriana.

Mas alguns céticos ainda hoje reclamam para si tal denominação, afim de evitar uma comparação injusta a qualquer crença pautada na fé; afinal os céticos a repudiam, e a razão sozinha parece ser insuficiente para provar a inexistência de qualquer coisa. Alguns religiosos de plantão parecem não se cansar de acusar o ateísmo de “requerer fé”.

Daí a cada autor cunhar sua própria descrição é um passo: agnóstico teísta e ateísta, ateu fraco, ateu forte etc; uma verdade salada que deixa o sujeito que não crê em deuses perdido quanto ao título que deve adotar. 

Armadilhas semânticas

As palavras nos servem, mas por vezes nos escravizam. E boa parte da calorosa discussão entre os termos (agnóstico versus ateu) é pura bobagem: geralmente pretendem denotar a mesmíssima postura.

Os ateus comumente tem a ingrata tarefa de explicar que se reconhece “ateu” por questões práticas, considerando a probabilidade da existência de um deus tão insignificante a ponto de tratá-la como nula.

Já aos agnósticos cabe a tarefa (igualmente ingrata) de esclarecer que o termo apenas os protege da acusação do uso da fé,  e que nem de longe consideram a possibilidade de colocar deus no centro (50/50) da régua que mede sua probabilidade de existir.

É um erro comum – porém gravíssimo – tomar o agnosticismo como meio-termo entre o teísmo e o ateísmo.

Mas existe ainda um terceiro tipo: os “arghnósticos”. São aqueles que verdadeiramente rastejam atrás de uma postura covarde, em cima do muro, arrastando disfarçadamente deus para o único terreno onde ele verdadeiramente encontra forças para sobreviver: o fideísmo. Esses são um tipo bem peculiar de primatas…

Os lêmures que o digam.