Autor: Fabrício Roveri “Pudoca”

diceIremos morrer. Você e eu. C´est la vie.

É costume dizer por aí que a morte é a única certeza de quem vive. Gosto de ir além desse lugar comum e dizer que ela é o nosso maior prêmio.

Essa reflexão começou quando eu era ainda muito pequeno (cerca de dez anos, suponho) ao ouvir uma das pérolas de Seu Egídio, meu avô: uma pessoa sem cultura ou estudos, e ainda assim com algumas percepções singulares e ousadas acerca da vida. Na ocasião, alguém distante tinha falecido, e ele teceu uma crítica ácida à comoção do velório: “não entendo como a morte pode ser menos natural, ou ainda menos desejada do que o nascimento; deveríamos estar a festejar, não a lamentar”. Ou algo mais ou menos assim – estou sendo o mais fiel que minha memória me permite. Essas palavras soaram-me como um absurdo total, como a todos naquele recinto, que rapidamente (e como de costume) torceram o nariz para o velho. Mas dentro do absurdo farejei alguma sabedoria, e essa questão acabou por assumir uma importância extrema: inaugurou as engrenagens filosóficas da minha mente. Eu sabia que havia uma verdade naquilo, só não sabia onde. E precisa urgentemente descobrir.

Aconteceu de eu me tornar, nos anos que seguiram, um naturalista; excluindo de minhas crenças a idéia de deus, alma e vida eterna.

O que nos traz uma nova ótica à questão do Seu Egídio: por quê a morte deve ser algo bom? Justo para mim, que consegui a emancipação da crença de que minha alma viveria para sempre? Não deveríamos ser justamente nós – incluo aqui os leitores naturalistas que compartilham essa (des)crença – infinitamente mais atormentados frente à própria mortalidade do que qualquer cristão que aspire à vida eterna?

Penso que é justamente o contrário, mas abandonarei aqui as questões que envolvem o medo cristão da morte para focar somente na ausência desse medo por parte dos naturalistas. Para a tarefa irei, antes, redefinir “milagre”.

O Michaelis nos traz algumas definições da palavra “milagre”: irei me apegar à sua quarta definição, muito mais válida para nossos propósitos científicos, e refutar todas as outras seis que fazem referência ao sobrenatural: “4. Fato que, pela raridade, causa grande admiração.”.

É perseguindo essa idéia de “milagre” que prosseguirei dividindo a improbabilidade de minha existência em duas grandes loterias: a de minha árvore genealógica e a de meu DNA.

Árvore genealógica

Uso o termo no sentido popular da coisa: analisando indivíduos, e não genes. Para que eu estivesse aqui, foi necessária a reprodução sexuada de dois indivíduos (meu pai e minha mãe), misturando seus códigos genéticos em partes iguais e dando origem à minha vida. Olhando uma geração anterior, foi necessária a união de outros dois casais: meus avós maternos e paternos. Mais um passo atrás na árvore genealógica e veremos que eu dependi de outros 8 indivíduos (meus bisavós). Assim temos uma progressão geométrica de quociente 2 à medida que avançamos ao passado. E essa idéia por si já é simplesmente assustadora!

Meus avós paternos descendem da Itália e minha avó materna descende da Espanha. O único que tem raízes irrastreavelmente perdidas em território americano (e anteriormente a isso, africano) é o famigerado Seu Egídio, que iniciou toda essa discussão. O que implica – em uma análise de curtíssimo prazo (apenas 2 gerações) – que tenho 75% de descendência genética européia. Tentei rastrear as famílias pela internet, mas os documentos são parcos. Além do que, se considerarmos que apenas os sobrenomes masculinos “sobrevivem” nas gerações seguintes, a tarefa se torna impossível. O importante aqui é compreender que, viajando pouquíssimo tempo ao passado, minha história cruza o atlântico e encontra raízes no velho mundo – e é para lá que vamos agora.

Vamos postular (arbitrariamente) uma idade média de reprodução de meus antepassados fixada em 25 anos, apenas para a possibilidade do exercício. E vamos retroceder em 28 gerações anteriores ao meu nascimento (um número igualmente arbitrário). Essa “máquina do tempo” nos leva teoricamente a sete séculos atrás, exatamente no meio da Europa assolada pela peste bubônica.

Gerações

Gerações

Usando o quociente 2 (número de indivíduos necessários para cada geração) podemos inferir que nesse cenário o número espantoso de 268,4 milhões de indivíduos teve que cumprir duas tarefas muito improváveis para que eu possa escrever esse texto hoje: sobreviver à altíssima taxa de mortalidade, que dizimou um terço de toda a Europa, e escolher o parceiro “certo” para a reprodução, afim de guiar a linhagem de descendência até o meu nascimento.

É importante ressaltar aqui a arbitrariedade do exercício, que tem uma assertividade questionável. Para identificar onde estavam os milhares de ancestrais no momento escolhido (sete séculos atrás) seria necessário um estudo genealógico que tomaria anos, o que não estou disposto a fazer.

Outra questão relevante é que considerei somente a peste bubônica, como uma singularidade entre os ofensores para a sobrevivência. É possível que alguns desses ancestrais não tenham enfrentado a epidemia (algumas regiões da Europa foram poupadas, como a Polônia e Milão). E é certo que muitos desses ancestrais tiverem muitas outras dificuldades, naturais e sociais, para que sua linhagem prosseguisse. Mas creio que já fiz entender o meu ponto.

Desconsiderando a localização geográfica de cada um desses ancestrais, nos resta a matemática irrefutável. Lembremos que a única arbitrariedade aqui foi a idade de reprodução fixada em 25 anos – um número irreal e confortável demais, já que a tendência é que essa idade seja puxada para baixo conforme nossa máquina do tempo avança ao passado. E é devido à essa larga margem de segurança que posso tranqüilamente afirmar que o número que apresentarei, se não for exato, é ao menos um menor número possível: somando o produto de cada etapa da progressão geométrica (cada geração) chegamos ao estonteante número mínimo de 536.870.911 indivíduos que colaboraram retrospectivamente para que uma única pessoa (eu) existisse hoje. Uma única alternativa, um único desvio na história reprodutiva desse meio bilhão de pessoas, e eu não estaria aqui. E isso voltando a pouquíssimos 700 anos, uma ninharia se comparada à história de toda a humanidade, e uma ninharia infinitamente menor se comparada à toda a história da vida.

Desvendando o milagre (com uma ajudinha)

É claro que não imagino que alguma força sobrenatural tenha guiado toda essa cadeia de causa-efeito buscando qualquer finalidade. Isso é obra do mais puro acaso (ou determinismo causal, como preferir). Como adotei a idéia de milagre como sendo um evento altamente improvável, irei lançar mão agora de uma versão reduzida e adaptada do princípio antrópico para afastá-lo de qualquer razão sobrenatural que possa ser a ele atribuída por um hipotético leitor religioso de má fé.

Eu existo. E minha existência depende de uma cadeia causal de eventos que nos parece assustadoramente improvável. Mas cá estou, contrariando todos esses números e refletindo sobre minha própria improbabilidade de ser. Portanto, é necessário que os eventos tenham se desenrolado exatamente da forma como os leio, à posteriori, por mais improváveis que eles sejam. Existem infinitos cursos alternativos da história da minha árvore genealógica que seriam tão válidos quanto a realidade observável. O argumento antrópico é estupidamente simples, e pode ser aplicado à questões muito maiores, como as condições planetárias necessárias para a vida ou às constantes físicas que regem o universo. Se estamos aqui, olhando essas condições, elas existem. E qualquer tentativa de imputar causa inteligente ou um desígnio à priori para elas não passa de uma infantil necessidade de colocar o homem acima da natureza.

A morte: o canhoto do bilhete premiado

A segunda loteria à qual me referi é a do DNA. Existe um sem número de combinações possíveis dos códigos genéticos de meus pais. E, por extensão, de todos os meus antepassados.

Esse número de combinações possíveis de DNA é infinitamente maior do que o número real de pessoas que já existiram e existem. Esse “lugar nenhum”, esse “limbo” dos que não vieram inclui talvez cientistas mais brilhantes que Newton, escritores mais geniais que Shakespeare e homens mais inovadores que Darwin. Mas eles não estão aqui: cederam silenciosamente seu lugar para que eu ocupasse meu pedaço nesse mundo.

Podemos agora entender a dimensão da improbabilidade da nossa vida individual e, portanto, compreender o motivo de aceitarmos com mais tranquilidade nossa morte: a maioria das pessoas nunca vai morrer porque sequer vai nascer!

Essas duas loterias multiplicadas entre si resulta em uma improbabilidade muito maior do que sequer podemos imaginar. Somos ganhadores de um prêmio raríssimo, e temos por obrigação sermos gratos – e felizes – até os momentos finais. É muito egoísmo de nossa parte espernearmos apenas porque devemos voltar ao estado anterior à vida, do qual uma infinidade sequer sairá.

Seu Egídio, que foi o ponto de partida para esse texto, faleceu. E, em determinado ponto de sua vida, converteu-se ao cristianismo (evento esse que testemunhei). Infelizmente também testemunhei seu medo e revolta diante da morte, trazida por uma implacável e cruel forma de câncer.

A ele dedico esse texto. Ao homem que, embora não tenha tido disponíveis os recursos intelectuais necessários que mantivessem aceso seu apreço pela naturalidade da morte, contribuiu, ainda que de forma humilde, para que eu o tenha hoje. Parte dele vive em mim, em meus genes. E seu próprio “eu” está, de certa forma, vivo no exato momento em que evoco suas lembranças. Ele não podia imaginar, mas aquele comentário tão despretensioso seria uma das primeiras questões que, de alguma forma, impulsionariam seu neto a insistir na celebração da vida, mesmo a cada insistente intermitência da morte.

Anúncios