Autor: Luiz Bicalho

IlluminatiUm filme de ação como todos os outros do gênero: uma ameaça vinda de um grupo desconhecido (Illuminati); o roubo de uma porção de antimatéria;  policiais em conflito (a guarda suíça do Vaticano e os carabinieri da Itália); um herói erudito e, ao mesmo tempo, um homem de ação;  a mocinha bonita e muito inteligente.

Sim, os ingredientes são perfeitos. E para uma ação no Vaticano, nada melhor que o nosso herói seja ateu, de coração e mente, como ele próprio declara a um padre que o entrevista. Tudo certo como 2 e 2 são cinco, já que toda a trama se desenrola em grandes lances, corridas de carro e a ameaça de uma explosão capaz de destruir o Vaticano e metade de Roma.

A estória é simples e fácil de ser resumida: um grupo desconhecido (Illuminati) quer se vingar da Igreja Catolica pelos ataques à ciência, desde os tempos de Galileu. Para isso, rouba uma porção de antimatéria (ficção não possível, mas aceitável em termos de romance); rapta quatro cardeais na data da realização de um conclave; ameaça matar cada um deles com a marca dos “quatro elementos” (ar, fogo, terra e água) e, ao final, explodir o Vaticano e metade de Roma com a antimatéria.

Nosso herói é um estudioso de História e Arqueologia que tem seus pedidos de acesso a biblioteca do Vaticano repetidamente negados. Mas, como é um expert no grupo conhecido como Illuminati (que teria sido formado por cientistas na época do renascimento) é chamado pelo proprio Vaticano para ajudar a descobrir quem são os “terroristas”. Ah, e a cientista que produziu a antimatéria também está lá para impedir a explosão. Infelizmente, o filme não conseguiu tempo, entre tantas correrias e mortes de cardeais e policiais, para mostrar o romance entre herói e heroína, presente no livro. Ficou o cineasta a nos dever uma parte interessante da trama original.

Se, contrariando as expectativas, no final não é o mocinho que salva a mocinha; o interessante é o que o filme faz: coloca na disputa pelo papado duas visões da relação da Igreja com a ciência: ou a Igreja tutela a ciência, pois tem uma sabedoria antiga e não adianta entender o raio se não conseguimos vislumbrar a sua beleza divina; ou a Igreja entende que ciência e fé não são contraditórias e a ciência pode e deve comprovar a verdade divina.

Uma bela disputa – e não nos cabe aqui indicar o resultado político dela, nem quem são os protagonistas envolvidos, para que não se perca o mistério pouco que sobra de tão pobre filme. Alias, interessante é que ao final o mocinho continua ateu e a visão que se passa é que a fé nada tem contra a ciência. Inclusive em relação ao mocinho, que finalmente recebe da Igreja, como presente, o tão desejado livro que permitirá a continuidade de suas pesquisas.

Esta interessante lição de moral tem um objetivo: mostrar que as igrejas e a crença em deus não atrapalham a ciência e, muito pelo contrário, contribuem para o seu desenvolvimento. Para isso, o filme trata sem nenhum pudor a antiga hipótese (feita no tempo dos gregos) de que o mundo é formado por quatro elementos e mais um quinto, a antimatéria. Claro que na Grécia antiga uma especulação dessas, assim como a especulação sobre os átomos, serviu para mostrar que existiam possibilidades materialistas de explicação do mundo, que não era necessário recorrer à existência de deuses para tanto.

Hoje, quando sabemos pela teoria atômica que os átomos são “tomos” divisíveis; que conhecemos a composição dos átomos (prótons, nêutrons e elétrons) e até desses componentes (quarcks), reviver os quatro elementos é reforçar o misticismo, é fazer crer que a ciência ou os cientistas são místicos.

Além disso, se observarmos a posição atual da Igreja Católica (e também da maioria das outras igrejas) veremos que elas pretendem justamente promover o casamento de duas posições em disputa e, onde for possível, “tutelar”, “influenciar” e dirigir a pesquisa científica. E, tanto onde consegue fazer isso como onde não consegue, a Igreja deseja que a ciência “mostre” as evidências des deus em suas teorias, seja através do design inteligente; do bigbang; nas formulações da “teoria da evolução católica” que admite a seleção natural como obra de deus para criar o homem; entre outras.

O final do filme, ao tentar redimir a Igreja por meio da entrega dos documentos que o herói pesquisador tanto buscava, quer, na verdade, mostrar que a Igreja é “amiga” da ciência; que a Igreja, em  tempos passados, cometeu seus erros, mas hoje é aliada da ciência.

Algo que, como a ficção, está um pouco longe da realidade.

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