Autor: Vides Junior

Ciência e Fé

Ciência e Fé

Se um dia os criacionistas apresentarem uma prova consistente de que deus tenha realizado o trabalho da criação, certamente todos os cientistas estarão dispostos a reavaliarem seus conceitos. A ciência é apoiada em indícios e comprovação através de estudo.

Muitos criacionistas, na tentativa vã de desmerecer a evolução, criaram o conceito do imediatismo divino. Nesse conceito deus realmente criou o Universo há seis mil anos atrás, como afirma a bíblia. O fato de apontarmos nossos telescópios para o céu e verificarmos que existem galáxias que estão há milhões de anos-luz de distância nada mais é do que uma ilusão muito bem elaborada de deus. Esse Universo onde habitamos tem todos os indícios de que foi criado há bilhões de anos atrás. Esse argumento, por sua natureza, não pode ser comprovado nem refutado. Deus realmente tem um poder inimaginável para criar todo o Cosmos em um momento histórico de seis dias e nos dar a impressão que sua criação estendeu-se por uma infinidade de tempo. Mas analisemos o conceito da criação por essa perspectiva.

Imagine que todo o Universo foi criado há duas horas atrás. Todas as pessoas que você conhece, todas as descobertas científicas, todas as línguas faladas, todos os animais que já foram extintos e todas as estrelas descobertas surgiram há exatamente duas horas. Então, todas as suas memórias foram criadas há apenas duas horas atrás. Você verdadeiramente não leu os primeiros capítulos desse livro, mas eles foram incutidos em sua memória de modo que você acredite que já os tenha lido e pode, inclusive, citar alguns trechos.

Nesse ponto, vou pedir licença ao leitor e falar em primeira pessoa.

A morte do meu pai, a quinze anos atrás, de câncer no pulmão, foi um acontecimento trágico que abalou toda a família e trouxe tristeza a mim, minha mãe e minhas irmãs. Por oito meses, ele definhou numa cama de hospital, respirando através de tanques de oxigênio, acumulando água no pulmão e no organismo. Por noites a fio, fizemos vigília em seu quarto, segurando sua mão, conversando com ele, tentando, em vão, trazer alguma esperança a ele. Mas a morte reinou no final.

Se o mundo foi criado há apenas duas horas atrás, significa que meu pai jamais viveu. Ele só existe na minha memória e na memória daqueles que o amaram e conheceram. Mas, se formos ao cemitério (criado há duas horas atrás) e exumarmos seu corpo, ele estará lá. Todas as lembranças daqueles dias tenebrosos voltarão e sentiremos a dor causada por todo sofrimento que presenciamos virá à tona. Mas essa dor resultará de algo que jamais aconteceu, algo que está somente em nossas memórias.

Pergunto-me: isso é sadismo? Porque deus me engana dessa forma, me fazendo acreditar que meu pai teve um fim tão trágico? Não seria mais concernente a um deus de amor e bondade criar lembranças falsas onde meu pai fosse um herói que morreu por uma causa justa, ao invés de vitimado pelo cigarro? Seria deus um ensandecido manipulador de marionetes humanas? Por que um criador teria o trabalho de criar tantas lembranças sórdidas e intrincadas? Por que ele se daria ao trabalho de criar o noticiário de ontem e nos fazer lembrar as mortes injustas, os planos econômicos e os casamentos das celebridades?

É isso que acontece quando se considera o criacionismo. Ao fazer surgir o Universo há seis mil anos atrás, deus alimentou sua criação com uma diversidade infindável de sutilezas e evidências que fazem crer que ele existe há bilhões de anos. Plantou fósseis que nos levam a crer que nós, Homens, surgimos há cem mil anos atrás. Permitiu-nos desenvolver instrumentos que mostram galáxias distantes que se afastam de nós a uma fração considerável da velocidade da luz. Mas tudo isso é uma ilusão. Tudo foi criado há apenas alguns milênios atrás. Por quê ele faria isso? Seria um prazer mórbido em nos enganar? Será que ele se diverte em ver que nos iludimos ao decifrarmos mistérios com milhões de anos de idade? Será apenas um teste para mostrar quais, dentre nós, conseguem manter sua fé coesa diante de evidências falsas tão realistas que o excluem de qualquer papel da criação? Se qualquer uma dessas perguntas for válida, então deus tem um senso de humor perverso e adolescente, pois poderia ter-nos criado de forma que todos alimentassem o desejo de vê-lo e senti-lo, de conhecer sua soberania e superioridade.

O filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970), em seu artigo ‘Dúvidas Filosóficas’ levanta essa questão com argumentos semelhantes. Mas finaliza com uma afirmação desanimadora ao dizer que “Não há impossibilidade lógica à esta opinião, assim como não há impossibilidade lógica à opinião segundo a qual o mundo foi criado cinco minutos atrás, cheio de memórias e registros. Talvez pareça uma hipótese improvável, mas não refutável logicamente”.

Talvez seja por isso que os criacionistas modernos não falam em deus, e sim, em ‘criador’, quando levantam suas teorias. Eles querem excluir o deus cristão de quaisquer responsabilidades frente às perguntas capciosas dos cientistas. Assim, hoje existem criacionistas que são bacharéis em ciências naturais, verdadeiros conhecedores dos princípios matemáticos que regem o Universo e a natureza. Eles vestem o uniforme da ciência e argumentam baseados nas lacunas que as teorias científicas ainda possuem. Mas esse uniforme não tem um caimento perfeito. Sobram mangas que atrapalham seu manuseio e as barras, longas demais, os fazem tropeçar constantemente.

Mas, se é assim, então porque os evolucionistas têm tanto receio deles? Não seria muito mais fácil e cômodo simplesmente ignorá-los?

A resposta pode ser encontrada em linhas gerais em ‘A Ameaça do Criacionismo’, onde Isaac Asimov diz:

“É a religião que recruta os seus esquadrões. Dezenas de milhões de pessoas, que não conhecem ou não entendem os argumentos verdadeiros pró ou mesmo contra a evolução, marcham no exército da noite agitando suas Bíblias. E eles constituem um poder forte e combativo, impermeável e imunizado contra a débil lança do simples raciocínio”.

Este é mais um motivo pelo qual o ensino confessional deve ser combatido com rigor. Além de causar um desconforto evidente entre dois professores que professam correntes diferentes, o criacionismo não tem apoio apenas nas salas de aula. Ele é defendido nas igrejas, na televisão, no seio da família. Sua presença é sentida nos feriados: páscoa, natal, nossa senhora aparecida, corpus Christi, finados. Na televisão aberta, existem 25 programas religiosos só nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Em todo o Brasil, existem cerca de 1.600 emissoras evangélicas atuando nas freqüências AM e FM (excetuando-se as rádios piratas).

O absolutismo do criacionismo traz, de certa forma, conforto para aqueles que o seguem. Ele não é sujeito a alterações, portanto é mais fácil de ser guardado. Tem uma rigidez que não permite desvios e poupa o cérebro da trabalhosa necessidade do raciocínio. A ciência não. Ela evolui constantemente, conforme novas técnicas são introduzidas para decifrá-la, permite interpretações variadas, é complexa em seus diversos cenários e exige pensamento cético e compreensão ética, é fria, calculista e indiferente aos anseios pessoais. Além disso, o criacionismo tem uma regra que, com efeito, atinge o âmago de cada um dos seus seguidores: se você não aceitá-lo, corre o risco de queimar eternamente no inferno. Um argumento certamente convincente para os de mentalidade mais fraca. Ninguém quer arriscar sua vida eterna pela ciência. Por outro lado, a ciência é vista por alguns líderes religiosos como uma arma satanista, um mal que deve ser combatido. A ciência produziu a bomba nuclear, os gases tóxicos, a dinamite, o lixo radioativo.

No entanto, é ela quem nos trouxe todas as verdades que hoje são aceitas a rigor pela sociedade, incluindo aí os criacionistas. A despeito de todo seu fervor, os religiosos não têm coragem de depositar toda sua vida nas mãos de deus. Ao invés de rezarem para curar as doenças de seus filhos, eles o levam para tomar vacinas; quando perdem um braço num acidente, não levam a vítima à igreja, mas ao hospital; ao serem acometidos por uma doença crônica, eles não dizem que é a vontade de deus’, mas levam o doente a centros de tratamento onde a doença pode ser revertida. A religião pode trazer conforto, mas é a ciência quem traz saúde e longevidade. Em seu livro ‘Talvez Sim, Talvez Não’, o escritor Dan Barker fala com bom humor sobre a eterna guerra entre ciências e crenças quando afirma que “A verdade não tem que ser aceita com fé. Os cientistas não seguram suas mãos todo domingo, cantando: ‘Sim, a gravidade é real! Eu vou ter fé! Eu devo ser forte! Amém!”. A verdade é o argumento de defesa da ciência e, por enquanto, tem sido de exclusividade dela.

Analisada de forma sistemática, a controvérsia entre evolucionismo e criacionismo não parece ser de ordem filosófica, nem mesmo uma disputa entre ciência e religião. É, antes de tudo, um conflito de interesses pela política educacional e pelo comando do intelecto social em formação. Uma amostragem clara de que os políticos são capazes de agir de forma egoísta e impensada, ameaçando a verdade conquistada através de décadas de pesquisa para beneficiar alguns grupos em troca de apoio eleitoral.

Seria a política capaz de engendrar milagres e manipular massas em prol de um objetivo mesquinho? No próximo artigo, veremos que a política pode criar fenômenos que, mesmo fadados ao fracasso, perduram por décadas, alimentados pela fé dos mais simplórios.

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