Autor: Vides Junior 

Ciência e Fé

Ciência e Fé

Desde a década de 1950, o Ministério da Educação sugere que a teoria da evolução seja abordada como um eixo integrador de todas as vertentes biológicas, como a genética, a zoologia, a botânica e a ecologia. No entanto, especialistas denunciam que não é isso que está acontecendo. Na grande maioria das escolas, os professores ensinam a evolução apenas como mais um item das ciências naturais, apenas mais um tópico a ser estudado para as provas. O mesmo se dá nos materiais didáticos e nos vestibulares. Os professores seguem orientações diferenciadas. Enquanto um ensina sobre as cadeias de carbono, outros ensinam as eras biológicas, e outros, ainda, a formação celular. Não há um consenso.

A maioria dos catedráticos em ciências apresentam uma formação superior falha e muitos deles não conseguem diferenciar entre as teorias de Darwin e de Lamarck(02). As universidades repassam um conhecimento aleatório onde faltam conceitos essenciais ao darwinismo e deixando lacunas onde o criacionismo poderia entrar como fator explicativo. Outro fator significativo é que a evolução ainda é apontada como uma ciência polêmica, dando a entender que ainda está coberta de falhas, ou seja, situando-a no contexto do século 19, onde ela ainda era apenas uma explicação a mais para a origem da vida.         Talvez a polêmica gerada pela abordagem da evolução junto aos alunos tenha feito com que a teoria fosse gradualmente deixada de lado pelos professores, tornando-se um simples tópico abordado entre dezenas de outros.

Alguns professores enfrentam o desafio e apresentam a evolução como a única teoria capaz de explicar o surgimento das espécies; outros situam o criacionismo no contexto antropológico, explicando que, até alguns séculos atrás, ele era a única forma de explicar nossa origem.

Muitos alunos, por sua vez, sentem uma certa dificuldade em conjugar ambas as correntes. Mesmo entre os universitários de ciências naturais, há aqueles que, tendo sido criados sob os rígidos dogmas de uma religião, apresentam reticência em assimilar a evolução. O ideal, nesse caso, seria ampliar seu conhecimento sobre a religiosidade dos cientistas históricos, como Galileu, Darwin, Laplace, Copérnico, entre outros, e analisar como estes personagens conciliaram suas crenças com suas descobertas. Através dessa análise, esses alunos podem adquirir uma crítica construtiva sobre seus próprios conceitos, administrando seu conflitos internos. Assim como a ciência não tem fundamentalismos, a religião deve abrir mão de suas verdades absolutas e compreender que muitas de suas parábolas e histórias foram criadas em um tempo onde a ignorância do Homem não permitia um pensamento cético e a elaboração de verdades científicas. Isso evitaria um erro corrente onde, muitos alunos, ao chegarem às salas de aula no papel de professores, desenvolveram uma fusão entre ciência e religião onde preenchem as lacunas científicas com exposições teológicas, comprometendo não só a veracidade da ciência, mas também o pensamento crítico daqueles que aprendem com eles.

Muitos cientistas conseguiram, a despeito de seu aprendizado, manter sua fé coesa. O confronto entre dogmatismo religioso e dogmatismo científico nem sempre acarreta a anulação de um pelo outro. Mas a ciência é feita de perguntas que exigem respostas e é natural que os chamados ‘mistérios da vida’ acabem entrando no âmbito científico. Um antigo ditado latino que diz ‘ubi dubium ibi libertas’ (onde há dúvida, há liberdade) reflete a posição da ciência nessas questões. É óbvio que, tendo a chance de questionar as verdades bíblicas, os cientistas o farão. A liberdade científica é o elixir de sua existência. E quanto mais avança o campo científico, mais retraída se torna a influência religiosa. Algo que foi brilhantemente definido pelo semanário virtual ‘American Atheists’ quando, em um de seus editoriais, declarou que “Todas as coisas que a ciência descobriu sua origem, eram reivindicadas antes como sendo trabalhos de um deus. A crença em deus retrocede quando um novo fato é descoberto”.

Não é à toa que os religiosos criticam tanto a posição dos cientistas. Descobrindo respostas palpáveis a cada pergunta que fazem, os cientistas tendem a caminhar para a descrença em uma entidade superior que tudo comanda. E, quanto mais evolui a ciência, mais cresce o agnosticismo e a descrença entre os cientistas. Em 1997, os pesquisadores Edward Larson e Larry Withan fizeram um levantamento entre cientistas estadunidenses e descobriram que 39% deles acreditavam em deus, 45% não acreditavam e 15% eram agnósticos. No ano seguinte repetiram a pesquisa, restringindo-a apenas aos cientistas mais eminentes. Dentre estes, apenas 7% acreditavam em deus, 72% eram ateus e 21% eram agnósticos. Dos que acreditam em deus, 77% não aceitam a idéia da imortalidade.

Essa mudança de posicionamento faz parte de um processo natural na maioria das pessoas que seguem o caminho das ciências naturais. Muitos deles, tendo experimentado o furor da religião, hoje mostram-se respeitosos em relação à crença da Humanidade, evitando críticas e confrontos. Para a maioria, ciência e crença podem coexistir pacificamente. A religião só se torna um problema quando julga ser conhecedora absoluta de todas as verdades.

 

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