Autor: Vides Junior

Ciência e Fé

Ciência e Fé

A despeito das inúmeras controvérsias que envolvem a questão, o criacionismo parece adquirir força crescente, ao menos, no cenário educacional. E não é somente no estrangeiro que esse fenômeno anacrônico tem lugar. No Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, o ano 2000 foi marcado pela sanção da lei que determina a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas pelo então governador Antony Garotinho. A lei foi colocada em prática em abril de 2004, pela governadora presbiteriana Rosinha Matheus, e, no segundo semestre daquele ano, 760 mil alunos passaram a aprender religião nas escolas dos 92 municípios do estado. Para justificar a ousadia de promover o fim da secularização(01) no Rio, Rosinha falou ao jornal O Globo que não acreditava na evolução das espécies. “Tudo isso é teoria”, enfatizou.

O ensino religioso no Rio de Janeiro tornou-se obrigatório e engana-se quem pensa que todos os alunos são submetidos ao escrutínio de um único professor. Quando o projeto foi finalmente a campo, foram concursados quinhentos novos professores ‘confessionais’. 342 eram católicos, 132 evangélicos e 26 das demais religiões. Atualmente o número cresceu para 793. Curiosamente, não há um único que professe ateísmo. Na visão da governadora, todos devem seguir alguma religião.

A lei instituída causou certo pânico na comunidade científica e foi amplamente criticada. Até mesmo o professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP, Silar Guerriero, demonstrou surpresa com o fato. “A visão clássica era de que a ciência explicaria o mundo e com isso não haveria mais necessidade de se recorrer aos aspectos mágicos e religiosos, mas não foi bem isso que aconteceu”.

O problema maior, na visão dos cientistas, está na ameaça de proselitismo que pode advir dessas aulas. O artigo 1º da lei 3.459, que estipula a obrigatoriedade do ensino confessional no Rio é claro:

O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina obrigatória dos horários normais das escolas públicas, na Educação Básica, sendo disponível na forma confessional de acordo com as preferências manifestadas pelos responsáveis ou pelos próprios alunos a partir de 16 anos, inclusive, assegurado o respeito à diversidade cultural e religiosa do Rio de Janeiro, vedadas quaisquer formas de proselitismo.

Não pode-se saber, com certeza, se não haverá proselitismo nas escolas. Quando fecha a porta, o professor é senhor do seu espaço. A partir de então, pode atuar como desejar e, frente à simplicidade da maioria dos alunos, torna-se difícil saber o que está sendo ministrado e o que está sendo imposto. Ademais, o simples fato do ensino ser confessional, e não antropológico, já acarreta proselitismo, pois cada grupo de alunos será conduzido de uma forma, sendo educados em sua própria fé, ignorando o contexto da fé alheia e, portanto, perdendo seu direito de decisão de escolha de outra fé caso a que segue deixar-lhe de ser conveniente. Para muitos dos que criticam a governadora, religião serve para ensinar valores e comportamentos. Como afirmou a professora de pós-graduação em educação da USP, Roseli Fischmann, na mesma entrevista à Época: “Isso não pode ser tratado no dia-a-dia da criança, não precisa ser ensinado em aulas de religião. A religião é de âmbito privado, da família”.

O deputado Carlos Minc demonstrou ser contrário às aulas confessionais nas escolas públicas, afirmando que o ensino do criacionismo representa um retorno à Idade Média. Em 2003, ele sugeriu um projeto que alterava a lei 3.459, para que as aulas fossem ministradas sob um ponto de vista histórico-antropológico. O projeto foi aprovado por uma vasta maioria, mas foi vetado no mesmo ano pela governadora. Em entrevista à revista ComCiência, o deputado não mediu palavras ao dizer que “Trata-se de uma aberração legal e pedagógica. É claro que o oportunismo político ultrapassa fronteiras éticas e morais e pode se utilizar do atraso para conquistar apoio político de lideranças religiosas (…) O absurdo atual é o ensino do criacionismo em escolas públicas, desautorizando a teoria evolucionista. É o caminho de volta à Idade Média, com o risco de se incentivar as crianças a queimar os livros de Darwin”.

Seria Rosinha Matheus uma fundamentalista radical? Ou estaria ela mergulhada nos oportunismos políticos engendrados pelo massacrante apoio dos evangélicos? No censo do IBGE de 2000, 56% dos evangélicos disseram terem votado em candidatos da igreja. No Rio de Janeiro, 8% dos deputados federais eram evangélicos e tiveram 14% do total de votos da região metropolitana. Uma força a se considerar. E parece que já foi.

Se levarmos em conta que as aulas confessionais ferem um dos maiores princípios de uma democracia, que é o estado laico, onde todos têm total liberdade religiosa, inclusive para escolher não professar ou não seguir qualquer religião, então a governadora está agindo de forma antidemocrática, além de demonstrar total falta de respeito pelo poder legislador dos seus colegas de Câmara, cuja sobriedade foi posta à prova com o veto do projeto de lei de Carlos Minc.

A institucionalização do ensino confessional cria um paradigma que afeta, inclusive, a maioria dos religiosos cristãos, judeus, muçulmanos e espíritas brasileiros. Segundo a determinação da Secretaria de Estado da Educação do Rio de Janeiro, as escolas deveriam promover a reflexão do aluno sobre a criação do Universo, através de uma abordagem superficial do criacionismo. É sabido que a maioria dos religiosos de hoje aceitam de boa fé a evolução, sem ressalvas quanto aos métodos utilizados para provê-la. Assim, nem todos os religiosos são criacionistas e muitos crêem que a bíblia é somente uma fonte de inspiração espiritual, considerando-a mais como uma visão simbólica do que literal do mundo.

Já para aqueles que cresceram cultivando o pensamento cético e científico, o criacionismo adquire o status de ameaça à verdade, como definiu Isaac Asimov em seu artigo ‘A ameaça do Criacionismo’: “um sonho ruim, a súbita revelação de um pesadelo, a marcha renovada de um exército da noite convocado para desafiar o livre-pensamento e a compreensão das coisas”.

Alguns criacionistas criticam o evolucionismo dizendo que ele é apenas uma teoria, dando a impressão de que as teorias são criações da imaginação. Algo como: “Não tenho nada para fazer hoje, acho que vou criar uma teoria”.

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