Autor: Vides Junior

Ciência e Fé

Ciência e Fé

Defensor da teoria, o bioquímico estadunidense Michael Behe complementa o DI com o conceito da ‘Complexidade Irredutível’, exposta em seu livro ‘A Caixa Preta de Darwin’, onde estruturas complexas como os seres vivos só funcionariam se todas as suas partes estivessem presentes desde o início. Para isso, ele usa da analogia da ratoeira, onde basta que uma das peças falte para que a ratoeira deixe de funcionar. Behe acredita que é impossível para os organismos evoluírem até a complexidade atual, que todo organismo deve ter sido primariamente criado por deus e que os processos evolutivos tenham sofrido intervenção divina.

No entanto, o argumento de Behe é falho desde o princípio. Uma ratoeira é composta basicamente por três dispositivos: o sensor de presença, o gatilho e a guilhotina. Quando o rato pisa na ratoeira, aciona o sensor, este, por sua vez, libera o gatilho que solta a guilhotina, e esta esmaga o pescoço do rato.

É possível fazer uma comparação entre uma ratoeira e algo tão complexo quanto o corpo humano, onde, só no cérebro, temos bilhões de ligações neurônicas e milhares de terminações nervosas? Na verdade, até a mais simples bactéria apresenta uma complexidade que vai muito além de qualquer artefato mecânico. A ratoeira também não tem vontade própria. Ao contrário dos seres vivos, ela depende de um agente externo para seu funcionamento. Organismos vivos interagem com outros organismos e seus dispositivos biológicos são autogerenciados. Além disso, a ratoeira é resultante de um processo de design inteligente. Nós a projetamos. Poderíamos usar um exemplo muito mais complexo. Um computador tem milhares de ligações eletrônicas. Mas nós o projetamos. Nós somos o ônus da prova. Em relação a nós mesmos, onde está a evidência do nosso criador?

O DI também se apóia incondicionalmente na teoria do Consenso Geral. A premissa é simples. Se todos os povos de todas as eras acreditam que exista uma entidade superior, essa busca unânime sugere, indubitavelmente, uma verdade maior. Uma mentira não poderia, jamais, englobar uma crença quase unânime. No entanto, esse argumento também é falho, pois não existem duas correntes que se assemelhem em suas histórias da criação. Gregos, nórdicos, índios, chineses, esquimós, maias, cada um deles difere do outro sobre o momento da criação e como ela foi realizada. Além disso, o consenso geral não pode ser considerado prova irrefutável da verdade. Por milhares de anos, o Homem acreditou que a Terra fosse chata. Era um consenso geral.

Outro argumento bastante comum para rebater o evolucionismo é a teoria da Ciência Falha. Para isso, eles apóiam-se no fato de que a teoria da evolução apresenta diversas lacunas em sua construção: não existem estágios intermediários entre os vários registros fósseis encontrados, as datações feitas por decaimento radioativo são imperfeitas, as reconstruções feitas por antropólogos e arqueólogos são conduzidas por fé cega e dogmatismo. Na verdade, eles estão, em parte, certos. Nos 150 anos desde a publicação da teoria da evolução, ela vem sendo constantemente modificada e aperfeiçoada. Não é por menos. Alcançamos um padrão louvável nas diversas ciências que auxiliam na corroboração do darwinismo: fisiologia, microbiologia, bioquímica, etologia, genética. Todas essas ciências alcançaram um nível de excelência que nos permite, hoje, traçarmos um quadro muito mais fiel do que supunha Darwin em seu tempo. E é isso que faz da teoria da evolução uma verdadeira ciência. Ela também evolui! Não é apoiada em dogmatismos! Está sendo constantemente renovada e redefinida. E continuará sendo, enquanto o Homem tiver força de vontade para continuar questionando e buscando respostas cada vez mais satisfatórias. A ciência não é absolutista, ao contrário do criacionismo e do design inteligente.

O pesquisador da UFPA, Julio César Pieczarka, tem opiniões bastante restritas a respeito do DI. Em seu artigo ‘O que é o Design Inteligente?’, ele afirma que “se você assume que fomos projetados de modo ‘inteligente’ é inevitável a conclusão de se trata de um serviço muito mal feito, por um designer bastante incompetente, conclusão esta que dificilmente vai agradar a um criacionista”. Suas palavras não devem ser vistas como ofensivas. Imaginemos: se uma entidade superior comanda a evolução dos seres vivos, esta mesma entidade criou o vírus da AIDS, da gripe aviária, do Ebola. Dizer que esse trabalho de criação foi mal feito é, no mínimo, justo, afinal, sofremos com problemas de coluna, problemas cardíacos, falta de memória, gastrite, osteoporose. Onde está a inteligência que nos projetou? Talvez devamos fazer um abaixo-assinado exigindo um design mais apropriado, afinal, somos a raça dominante!
Pieczarka defende que existe, sim, um design na natureza, mas ele não corresponde a uma entidade superior, e sim, às necessidades impostas pelo ambiente e pelas eras de evolução. A mão humana surgiu da necessidade em manipular primeiramente alimentos, depois objetos; as escamas de uma cobra surgiram da necessidade de suportar a fricção no solo; as teias de aranha surgiram da necessidade de captar alimento de forma rápida e segura. “O grande problema com o Design Inteligente não é a idéia de design em si, é o imenso salto epistemológico em supor que este design implica necessariamente em um designer inteligente e consciente. O design que eles detectam foi ‘projetado’, porém, por um designer não consciente, que atende pelo nome de seleção natural”, afirma o pesquisador.

O problema com os defensores do DI é sua falta de conhecimento a respeito da teoria da evolução. Ao criar contra-argumentos para uma teoria, o mínimo que se exige é um alto conhecimento da teoria que está sendo discutida. A mutação, defendida pelo evolucionismo, é um aspecto tão realista que pode ser presenciado no cotidiano das espécies que nos cercam. Ela é uma necessidade de adaptação do organismo ao ambiente em que vive. Se hoje temos trinta milhões de espécies no planeta, é bem provável que tenhamos trinta milhões de chances de provar a origem de cada uma dessas espécies.

Se tomarmos por base o vírus da gripe, o Influenza, veremos que, a cada ano, ele se torna mais resistente. Isso se deve ao seu alto grau de mutação. Na verdade, o Influenza é, talvez, o mais bem-sucedido organismo existente na Terra. Pode viver fora de um hospedeiro, suporta variações extremas de temperatura e muda suas características a cada novo hospedeiro que atinge. Outro exemplo são os exércitos de insetos que assolam as colheitas nos campos. A cada nova safra, os agrotóxicos têm que ser reavaliados, pois as novas gerações de insetos são mais resistentes que as anteriores.

O design que os criacionistas tanto apregoam existe. A evolução está aí para mostrá-lo. No entanto, não existe qualquer evidência que nos mostre uma inteligência por trás desse planejamento. Ele é, para todos os efeitos, ocasional, e o DI mostra-se apenas como mais uma tentativa – frustrada, talvez – dos criacionistas defenderem suas teses frente ao esmagador poder empírico da ciência. É apenas mais uma relevância da fé, mas que atrai novos seguidores dia a dia.

………………………………………………..

 Ler a PARTE I         Ler a PARTE III

Anúncios