Autor: Vides Junior

“Mesmo quando uma nova teoria parece representar uma revolução, ela geralmente surge de pequenos refinamentos. Se algo mais do que um pequeno refinamento fosse necessário, então a teoria anterior não teria resistido.” (Isaac Asimov)

Ciência e Fé

Ciência e Fé

Ter fé ou não. Será esta escolha tão essencial ao aprendizado dos homens a ponto de dividir a Humanidade? Aquele que crê em deus fecha-se ao aprendizado da ciência pura? O cientista afasta-se da fé conforme cresce seu conhecimento das teorias que regem o Universo?

Radicais de ambos os lados – religiosos e cientistas – acreditam que um diálogo racional entre ambas as partes é um cenário idílico. Muitos, porém, conseguem assimilar ambos os conceitos, mantendo ativo o racionalismo científico sem abrir mão de sua religiosidade. Existem cientistas que aceitam fielmente a teoria do Big Bang e conseguem, ao mesmo tempo, manter sua fé numa entidade superior. Existem religiosos que defendem a teoria da evolução sem abrir mão de sua espiritualidade. Será mesmo possível que ambas – ciência e crença – possam estar certas?

Quando os cientistas definiram a idade do Universo em torno de 13 bilhões de anos, pensaram que tinham dado o passo definitivo na explanação do Cosmos, mas estavam enganados.

Em pleno século 21, cresce assustadoramente o número de pessoas que alimentam a crença de que a Terra – e todo o Universo – tenham sido criados há apenas seis mil anos atrás por intervenção divina e que os homens, assim como todos os animais, estejam separados definitivamente uns dos outros e que não há nenhuma cadeia evolucionária ligando-os. A estas pessoas, damos o nome de criacionistas.

Não há nada de errado, obviamente, com essas pessoas. Muitos entre nossos familiares e amigos aceitam incondicionalmente o criacionismo. Faz parte de sua filosofia e age como paliativo na conceituação da existência. Talvez a aceitação do criacionismo esteja intimamente ligada aos medos e anseios do pós-morte. Algo brilhantemente definido pelo cético estadunidense Justin Brown quando disse: “Se a bíblia está errada ao dizer de onde viemos, como podemos confiar nela ao dizer para onde vamos?”.

Muitos, ao se depararem com a ciência e tudo que ela representa para a religiosidade, acabam retrocedendo em sua busca por conhecimento, temerosos do que poderão encontrar se continuarem naquele caminho. A ciência compromete correntes filosóficas enraizadas no íntimo do Homem e traz questionamentos tenebrosos. Se evoluímos de um primata ancestral, então… deus também evoluiu. Mas deus é imutável. Será que deus tem a aparência de um primata? Ou será que ele não tem aparência alguma?

Tais questionamentos colocam à prova muito mais do que uma simples crença. Colocam em jogo toda a eternidade de quem crê. A ciência é contra a eternidade. Nada é absoluto. Tudo é mutável. Ao deparar-se com conceitos que abdicam do conforto da eternidade, muitos regridem na sua busca do conhecimento, temerosos do que podem encontrar se seguirem adiante. Outros, conscientes de que a sabedoria vale o sacrifício de qualquer filosofia de berço, continuam no caminho, para mais tarde perceberem que ultrapassaram a fronteira entre crer e saber e alguns o fazem com serenidade, como o pai do evolucionismo, Charles Darwin, quando afirmou:

“Eu tinha uma dificuldade cada vez maior, soltando as rédeas de minha imaginação, de inventar provas suficientes para me convencer. Fui tomado lentamente pela descrença, que acabou sendo completa. A lentidão foi tamanha que não senti nenhuma aflição, e desde então nunca duvidei de que minha conclusão foi correta. Aliás, mal comigo entender como alguém possa desejar que o cristianismo seja verdadeiro”.

Que uma coisa fique clara. Este artigo não tem a intenção de desacreditar o cristianismo ou qualquer corrente filosófica baseada na religião. Apenas busca alcançar – ou se aproximar – da verdade mais coerente. O Homem só pode ter surgido de uma forma. Ou ele foi criado, ou ele evoluiu. Não pode ter duas origens. Essa resposta, apesar de parecer clara, não o é, pelo menos na mente da maioria das pessoas.

Nos dias de hoje, poucos são os estados teocráticos que pregam a verdade absoluta da criação. Existe uma liberdade de pensamento que flui nas sociedades e que dá ao Homem a chance de escolher qual caminho vai seguir. No entanto, a política ainda existe – e mais forte do que em qualquer época – e descobriu, na religião, uma força eleitoral que pode destituir a ciência como formadora de opinião.

Não é exagero. Nos Estados Unidos, o ex-presidente George Bush elegeu-se instituindo a religião como ponto forte de sua campanha. Entre seus discursos, era comum usar a máxima: “não sei se os ateus devem ser considerados cidadãos americanos, ou mesmo se devem ser considerados patriotas. Esta é uma nação de deus”.

O mesmo caminho seguiu seu filho, George W. Bush, que passou a usar a religião como foco de sua campanha após os atentados de 11 de setembro de 2001. Bush, apesar de mostrar-se contra o preconceito reinante nos Estados Unidos contra árabes e muçulmanos, afirmou, na época dos atentados, que tudo não passava de uma maquinação vinda de “uma religião malvada”. Apoiado por um sem-número de líderes religiosos protestantes que diziam que os atentados eram um presságio apocalíptico contra uma América subjugada pelo pecado e imoralidade da esquerda, Bush cresceu nas pesquisa e conseguiu se reeleger às custas das minorias. Entrará para a história o discurso que fez na Associação Cristã de Washington, onde disse os Estados Unidos estavam sendo castigados “pela permissividade ateísta de Clinton, onde os verdadeiros cristãos foram jogados às margens da vida pública e privados de seus direitos, enquanto, refletindo o comportamento de seu próprio presidente, nossos jovens entregam-se à promiscuidade”.

O perigo, nesse cenário, reside na busca pelo poder. Nos Estados Unidos, as igrejas protestantes multiplicam-se aleatoriamente. Desde 1995, os criacionistas já tentaram alterar a política de educação em 25 estados. O primeiro a ceder à pressão foi o Arkansas, onde a lei exige que seja dado o mesmo espaço ao ensino da criação quanto da evolução. Em seguida veio o Kansas. Os estadunidenses, atualmente, são presenteados por mais de 800 horas de evangelização diária, feitas através de 215 canais de televisão. A audiência total desses canais atinge, diariamente, um público de 70 milhões de pessoas. Um jornal do estado vizinho de Ohio, indignado com a decisão, escreveu que “o Kansas é, sobretudo, conhecido por ser plano e a próxima coisa que o Conselho de Educação vai com certeza anunciar é que o resto da Terra também é plana”.

Piadas à parte, a situação é preocupante. Nos Estados Unidos, a disputa entre criacionistas e evolucionistas é antiga. Em 1925, 21 estados norte-americanos proibiram o ensino da teoria da evolução nas escolas. A proibição durou até 1968, quando a Suprema Corte decidiu que a lei implicava interferência religiosa em assuntos estatais. Foi quando os criacionistas criaram sua própria ciência, o Design Inteligente, ou, simplesmente DI.

O DI surgiu, em tese, em 1831, quando o teólogo estadunidense William Pailey imaginou que, sendo a natureza como é, obedecendo todo um princípio existencial, logo teria que ter sido criada por uma inteligência superior. Numa parábola tão esclarecedora quanto digna de controvérsias, ele afirma que, se caminhássemos por uma estrada e encontrássemos uma pedra, não daríamos atenção significativa a ela, pois ela estaria ali desde o princípio dos tempos. Mas, se na mesma estrada, encontrássemos um relógio, logo nos viria a mente a idéia de um relojoeiro e, portanto, uma inteligência por trás do projeto do relógio.

Ou seja, em linhas gerais, o relógio, cujo projeto é complexo, jamais poderia aparecer naturalmente. Teria que haver alguém por trás dele. Da mesma forma, Pailey acreditava que os homens, devido à sua complexidade, não poderiam ter simplesmente evoluído ao ponto atual.

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