Autor: Fabrício Roveri “Pudoca” 

Deus não é grandePensei em publicar essa resenha com o título “Christopher Hitchens não é (tão) grande”, mas desisti pelo gosto questionável que ele assume, assemelhando-se talvez a um hipotético título de resenha escrito por algum religioso militante. Mas o fato é que me decepcionei enormemente com Hitchens, assim como acontece a quem assiste o Pearl Harbor de Michael Bay, esperando um filme de guerra. 

Antes de descer a lenha, nada mais justo do que esclarecer dois pontos. Primeiro, eu tinha um preconceito acerca de Hitchens: esperava mais de seu “grande” livro. Não consigo nem embasar com precisão esse preconceito infantil: arrisco palpitar que talvez ele provenha da relativa pouca exposição dada a Hitchens pelos meios de comunicação preferidos dos novos ateus. Colocando em pratos mais limpos, esperava que ele tivesse argumentação ainda mais sofisticada que Dawkins.

 Segundo: impossível não comparar Deus não é Grande com Deus, um delírio, já que ambos parecem se prestar ao mesmíssimo papel – encorajar os ateus “no armário” a se pronunciarem publicamente e, por tabela, trazer ao nosso novo século toda a veemência e entusiasmo da guerra contra a hipótese de deus, vista pela última vez em Nietzsche. 

Então, é de uma perspectiva talvez infeliz de constante comparação com Deus, um delírio que escrevo essa crítica. Não que Hitchens seja ruim – longe disso – ele apenas fica apagado após a leitura de Dawkins (como foi no meu caso – imediatamente após uma releitura). 

Richard Dawkins estabeleceu as ciências biológicas e o darwinismo como terreno-base para seu ataque feroz às religiões (nada mais natural para um biólogo) e até flerta com certa intimidade com outras áreas, como a cosmologia e alguns ramos da filosofia. Hitchens, como se poderia naturalmente supor, também adota sua área de conhecimento como base para o ataque: o jornalismo. Mas fica tímido demais para arriscar-se fora dela. Portanto, temos a estrutura do livro recheada de polêmicas denúncias históricas (e deliciosas denúncias de políticas internacionais condenáveis, igualmente polêmicas) que embasam praticamente a totalidade de sua argumentação. Sim, Hitchens é, antes de tudo, um polemista. 

O problema é que ele erra o ponto e exagera. Por exemplo, nas referencias bíblicas que demonstram as inconsistências históricas dos evangelhos. Não que seja “demais” apontar tais inconsistências como provas de que a bíblia não deve ser absolutamente referência para um estudo histórico, mas é cansativo como argumentação a favor do ateísmo (e a pretensão de seu livro certamente é muito maior do que refutar a bíblia). 

Cabe aqui reconhecer o ponto onde Hitchens consegue destaque positivo: ele despeja sua acidez também nos escritos do Corão, que ficou praticamente imune aos ataques de Dawkins (que sabiamente excluiu o livro de Maomé de seus alvos, reconhecendo sua pouca familiaridade com o islamismo). 

Hitchens também demonstra preocupação em demasia ao avaliar os pretensos caráteres morais de personagens dos livros ditos sagrados e de autoridades religiosas e políticas, e essa leitura acaba soando como velha (ou simplista) para quem já refuta naturalmente a “moralina” das religiões. Enfim, ele acaba deixando o foco muito aberto, abandonando o objeto assunto do capítulo muito facilmente em favor de sua verborragia desenfreada e de sua necessidade de esmiuçar detalhadamente, com suas garras críticas, cada impropério histórico e cada absurdo político-religioso que traz à tona.

Dawkins, nesse ponto, consegue ser muito mais conciso, objetivo e prático, criando um texto mais limpo, polido e agradável. Dawkins, a despeito de sua agressividade aberta, realmente pode ser considerado polido quando comparado a Hitchens.

Outra a diferença crucial é que o biólogo soube ser metódico, atacando uma questão de cada vez e em uma seqüência lógica muito mais funcional do que Hitchens o faz. Chega mesmo a ser difícil perceber qualquer lógica progressiva de argumentos em Deus não é grande, que parece decidido a atacar as religiões de forma indiscriminada e enérgica, mas sem qualquer estratégia que conquiste a simpatia do leitor. 

Aliás, se você busca em Hitchens um bom manual de argumentação contra a idéia religiosa, desista – a não ser que você tenha memória fotográfica para assimilar as toneladas de denúncias históricas e atuais que ele traz. Em termos de praticidade para compreender as bases de um posicionamento ateísta (talvez até mesmo o seu próprio), Dawkins o supera, de longe.

Deixo a dica aqui, que é interessante ler ambos os livros. Mas com o cuidado de ler Deus não é grande obrigatoriamente antes que Deus, um delírio, para não ficar com a sensação de chover no molhado. A vaga de cruzado humanista deixada em aberto por Nietzsche (e depois por Bertrand Russell) ainda é do habilidoso biólogo do Gene Egoísta.

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