Autor: Patrick J. Hurley
Tradução: Álvaro Nunes
Fonte: Filosofia e Educação: Original: A Concise Introduction to Logic, Wadsworth, Belmont, 2000, pp. 588-606

pseudoObjetividade

As nossas crenças acerca do mundo são objetivas na medida em que não são afetadas por condições peculiares ao sujeito. Estas condições podem ser tanto motivacionais como observacionais. Por exemplo, uma crença que seja motivada pelas emoções do sujeito e cujo fim seja principalmente satisfazer essas emoções tende a ter falta de objetividade. Tem igualmente falta de objetividade uma crença que se funde em observações peculiares ao sujeito, como as alucinações visuais. Embora a objetividade seja um ideal que nunca pode ser completamente atingido, quase toda a gente concordaria que as crenças merecem mais confiança se o seu conteúdo não for distorcido pelo sujeito. O cientista luta constantemente para evitar tais distorções, mas a mente supersticiosa deleita-se com elas ou, em casos mais trágicos, sucumbe-lhes.

As superstições existem pelo menos em parte para satisfazer as necessidades emocionais do sujeito. As principais emoções que estão na origem das crenças supersticiosas são o medo e a ansiedade, e são com freqüência reforçadas por uma predisposição para a fantasia e para a preguiça mental. Muito do medo e da ansiedade são provocados pelo fato de toda a gente morrer. A morte pode ser súbita, como num acidente numa auto-estrada, numa queda de um telhado, numa avalanche, ou pode resultar de um cancro, de um ataque cardíaco ou de uma trombose. Para além da morte, toda a gente está sujeita a ferimentos e aos sofrimentos que os acompanham, e a maior parte das pessoas numa altura ou noutra sentem o sofrimento mental que acompanha a rejeição, a solidão e o fracasso.

As pessoas têm um domínio limitado sobre estes fatos da vida e, para aliviar a ansiedade que eles produzem, muitas recorrem aos encantamentos e aos amuletos, aos rosários de contas pendurados do espelho retrovisor ou do escapular, ou às medalhas exibidas em redor do pescoço. Se nenhuma outra coisa nos proteger dos terrores da vida, talvez estes objetos o façam. Afinal de contas, a ciência revelou-se incapaz de vencer a doença e a morte, e oferece ao crente apenas verdades temporárias que podem mudar amanhã. Para as pessoas que enfrentam um futuro incerto, o desânimo ou a solidão, pode parecer mais razoável ligar para a Psychic Friends Network e comprar um pouco de consolação imediata.

Um segundo elemento na condição humana que origina ansiedade é a liberdade e a responsabilidade que ela implica. A idéia de que tu, e apenas tu, és responsável pelo teu destino pode ser uma idéia muito assustadora. Muita gente assusta-se com a idéia e procura refúgio num líder ou guru. Elas entregam todo o seu poder de pensamento crítico a este líder e seguem cegamente as suas instruções em detalhe. Quando o líder lhes ordena uma qualquer forma de tolice, por muita idiota que seja, obedecem-lhe. Dizem-lhes que a crença ou prática que o líder ordena é essencial para a sua proteção. E quando o líder lhes ordena que enviem um cheque de cinqüenta dólares para auxiliar no restauro da torre da televisão ou para completar a mansão na colina, obedecem-lhe. Recusar significa que terão de enfrentar a sua própria liberdade. Às vezes, seguir tais ordens pode conduzir à tragédia, como aconteceu no massacre de Jonestown em 1978 e nos suicídios de Heavens Gate em 1997.

Uma predisposição para formas de pensar mágicas e para a preguiça mental facilita imenso o vôo para a superstição. Muitas pessoas, talvez mesmo a maior parte, ficam fascinadas com o misterioso, o secreto e o oculto, e algumas preferem acreditar numa explicação que parece mágica do que numa explicação cientificamente fundada. Os psicólogos Barry E. Singer e Victor A. Benassi realizaram uma série de experiências com os seus alunos nas quais tinham um mágico a fazer de conta que era um “médium” e realizaram demonstrações de façanhas psíquicas. Antes de as demonstrações começarem, disseram várias vezes aos estudantes com a mais clara das linguagens que o mágico estava apenas a fingir ser um médium, e que o que eles iriam testemunhar era realmente uma série de truques de ilusionista. No entanto, apesar destas advertências, a maior parte dos estudantes concluíram, experiência após experiência, que o mágico era de fato um médium. Além disso, muitos concluíram que o mágico era um agente de Satanás.

A predisposição para o mágico e o fantástico é enormemente reforçada pela mídia, em particular a televisão e os filmes. As mídias são servilmente subservientes para com os desejos de entretenimento das suas audiências, pelo que, dado o amplo fascínio com o mágico, as mídias lançam uma corrente constante de filmes, mini-séries e “notícias” devotadas ao tema. Estes programas abordam tudo desde vampiros e espíritos desencarnados até conspirações irracionais e a intervenção de anjos. Esta atenção contínua para com o fantástico aumenta a aceitação pública de explicações supersticiosas sempre que explicações realísticas não estão prontamente disponíveis, ou até mesmo quando estão.

Uma predisposição para a preguiça mental também ajuda na formação das crenças supersticiosas. É, na verdade, extremamente difícil assegurar que as crenças de alguém estão apoiadas em provas e passam o teste da coerência interna. A lógica desleixada é tão fácil que não é de admirar que as pessoas lancem mão dela. A maior parte das falácias informais tratadas no Capítulo 3 pode ter origem no pensamento desleixado. Após a velha Sra. Chadwicke passar a mancar pela igreja, um raio atingiu o campanário e queimou completamente a igreja. É óbvio que a velha Sra. Chadwicke é uma bruxa (falsa causa). Além disso, a velha Sra. Chadwicke veste uma capa preta e um capuz preto. Não há dúvida de que todas as bruxas vestem dessa maneira (generalização apressada). E é óbvio que as bruxas existem, porque toda a gente na aldeia acredita nelas (apelo ao povo).

Outro gênero de pensamento desleixado é o que envolve um apelo ao que se pode chamar falsa coerência. Um agricultor descobre que uma das suas vacas foi morta. Ao mesmo tempo o agricultor lê uma história num tablóide local contando que há um culto satânico na vizinhança. O culto pratica os seus ritos no décimo terceiro dia de cada mês. A vaca foi morta a treze. Assim, o agricultor conclui que a vaca foi morta por adoradores de Satanás. Esta forma de pensar tem muitas pontas soltas, mas isso raramente impede as pessoas de tirar uma conclusão. Tornar-se um pensador crítico e esclarecido é um dos principais objetivos da educação, mas infelizmente tornar-se educado é tão difícil para os estudantes de hoje como o era para os do tempo de Platão.

Até agora centramos a nossa atenção nas emoções e nas predisposições do sujeito que conduzem às crenças supersticiosas. Voltamo-nos agora para algumas das muitas formas como a nossa observação do mundo pode ser distorcida. Estas distorções constituem avenidas pelas quais as condições peculiares ao sujeito entram no conteúdo da observação. Quando estas observações distorcidas se combinam com as emoções e as disposições referidas anteriormente, é provável que as crenças supersticiosas surjam. As observações distorcidas podem ocorrer na mesma pessoa que tem as emoções e as disposições ou podem ser transmitidas em segunda mão. Em qualquer dos casos, a combinação conduz à superstição.

Um fenômeno bem documentado que influencia a nossa observação dos nossos próprios estados corporais é o do chamado efeito placebo. Um placebo é qualquer gênero de “medicamento” ou procedimento que não fornece nenhum benefício medicinal ou terapêutico em si mesmo, mas que pode efetuar uma cura quando se diz ao paciente que tem esse benefício. Por exemplo, disse-se a pacientes com dores no joelho que uma operação os curaria e, após uma pequena incisão que, em si mesma, não tem qualquer efeito terapêutico, a dor desapareceu. Disse-se também a pacientes que sofriam de tensão nervosa ou de depressão que um pequeno comprimido colorido (que é apenas açúcar) os curaria e, após terem tomado o comprimido, a tensão ou depressão desapareceu. É óbvio que nestes casos não é apenas o placebo que efetua a cura, mas o placebo juntamente com a sugestão implantada na mente do paciente pelos seus médicos.

Outro efeito bem documentado que influência a nossa observação do mundo em nosso redor é a chamada pareidólia. Este é o efeito devido ao qual podemos olhar para as nuvens, para o fumo ou para os revestimentos texturizados das paredes e dos tetos e ver animais, faces, árvores e assim por diante. Projetamos as imagens visuais com que estamos familiarizados em estímulos sensoriais vagos e relativamente sem forma e “vemos” essas imagens como se estivessem realmente lá. A pareidólia é responsável por uma boa parte da superstição religiosa. Por exemplo, em Fevereiro de 1999, voluntários que trabalhavam na Igreja Episcopal do Bom Pastor em Wareham, no Massachusetts, viram a imagem de Jesus nos nódulos de madeira de uma porta que estavam a pintar. Concluíram que a imagem era uma aparição miraculosa de Jesus. Afinal de contas, observou um deles, Jesus era um carpinteiro. Centenas de incidentes como estes foram relatados nos órgãos de informação, mas nunca aconteceu que alguém que tivesse sido educado como Budista ou Hindu tivesse visto uma imagem de Jesus.

Relacionado de perto com a pareidólia está o conceito de conjunto perceptivo, em que “conjunto” se refere à nossa tendência para perceber acontecimentos e objetos da forma que a nossa experiência anterior nos levou a esperar. A idéia de conjunto perceptivo é um produto da psicologia Gestalt, segundo a qual observar é uma forma de resolução de problemas. Quando somos confrontados com um problema, como encontrar a solução para um enigma ou para um quebra-cabeças, entramos num estado de incubação mental em que as potenciais soluções são reviradas nas nossas cabeças. Este estado é seguido por um momento de inspiração (assumindo que somos capazes de resolver o quebra-cabeças) após o qual a solução parece óbvia. Quando examinamos o quebra-cabeças numa outra altura, a solução pula para a nossa mente. Essa solução é chamada uma Gestalt, que, em alemão, significa forma ou configuração. Analogamente, qualquer ato de percepção envolve resolver o quebra-cabeças de organizar os estímulos sensoriais em padrões com significado. Cada padrão é uma Gestalt perceptiva, ou conjunto e, uma vez esse conjunto formado, serve para guiar o processamento de percepções futuras. Em conseqüência, percepcionamos o que esperamos percepcionar.

Em 1949 os psicólogos Jerome S. Bruner e Leo J. Postman realizaram uma experiência famosa na qual eram mostradas aos sujeitos réplicas de cartas de jogar vulgares – mas em que algumas das cartas foram alteradas invertendo a cor. Por exemplo, em alguns grupos de cartas, o três de copas era preto e o seis de espadas era vermelho. Em vinte e oito indivíduos, vinte e sete viram inicialmente as cartas alteradas como sendo normais. Um indivíduo identificou o três preto de copas como um três de espadas em quarenta e quatro apresentações sucessivas. Esta experiência mostra com clareza que percepcionamos o que esperamos percepcionar e, na verdade, este fato é-nos a todos familiar. Por exemplo, esperamos receber um telefonema e, enquanto tomamos ducha pensamos ouvir o telefone tocar, apenas para que alguém em outra divisão nos diga que o telefone não tocou. Ou, ao conduzir, podemos nos aproximar de um sinal octogonal vermelho no qual se lê ST_P (a nossa visão do sinal estando parcialmente bloqueada por um ramo de árvore entre o S e o P). No entanto, paramos o carro, porque percebemos que o sinal se lê STOP. Na verdade, o que o nosso sentido da visão recebeu foram três consoantes (S, T, P), sem sentido até terem sido processadas por meio da percepção.

Um outro fator que também influência o nosso sentido da visão é o efeito autocinético. De acordo com este efeito, uma pequena luz fixa rodeada por escuridão será com freqüência vista como estando-se a mover. Podemos provar para nós próprios a existência deste efeito olhando para uma estrela brilhante numa noite escura ou observando um pequeno ponto de luz fixo num quarto às escuras. O objeto iluminado parecerá com freqüência mover-se. Os psicólogos conjeturam que o efeito autocinético é o resultado de pequenos movimentos involuntários do globo ocular do observador e mostraram que o efeito é aumentado pelos relatos de outros observadores. Se alguém que esteja próximo disser que acabou de ver o objeto mover-se, com freqüência outras pessoas confirmarão este relato. Pensa-se que o efeito autocinético seja responsável por muitas alegações de avistamentos de OVNIS.

Os vários tipos de alucinações também podem distorcer o conteúdo da percepção. Dois gêneros de alucinações que afetam muitas pessoas nos momentos de sonolência entre dormir e vigília são as alucinações hipnagógicas e hipnopompicas (Hines, 1988, 61-62). As primeiras ocorrem imediatamente antes de adormecermos, quando as ondas cerebrais alfa mudam para ondas teta e as últimas ocorrem precisamente antes de acordar. Durante estes momentos o sujeito pode ver imagens extremamente vívidas e emocionalmente fortes, que parecem ser muito reais. Pensa-se que estas alucinações são responsáveis pelos fantasmas e outras aparições que as pessoas às vezes vêem nos quartos.

As alucinações coletivas são outro gênero de distorção perceptiva que pode ocorrer com grandes multidões. Antes que as alucinações possam acontecer, a multidão tem de ser levada a um estado emocional muito elevado, que pode ser causado pela expectativa de verem algo importante ou miraculoso. Pode ter acontecido uma ocorrência deste tipo em 13 de Outubro de 1917, quando cerca de 70.000 pessoas reunidas na aldeia de Fátima, em Portugal, esperavam ver um sinal miraculoso dos céus. Ao meio-dia, uma das crianças que alegadamente estava em contato com a Virgem Maria gritou para as pessoas olharem para o Sol. Elas assim fizeram e, em conseqüência disso, viram o Sol rodopiar por entre as nuvens e precipitar-se para a Terra. Claro que se o Sol se tivesse de fato movido, teria feito disparar os sismógrafos em todo o mundo. Além disso, muitas pessoas presentes não viram nada de invulgar, mas os seus relatos não foram tidos em conta. Contudo, mesmo hoje em dia muitos fiéis consideram esta observação do rodopiar do Sol como uma prova de milagre.

Finalmente, a operação da memória pode distorcer a forma como recordamos as nossas observações. A memória humana não é como o processo pelo qual um computador lê a informação do seu disco, com exatidão total. Em vez disso, é um processo criativo passível de muitas influências. Quando as imagens são chamadas da memória humana, são recuperadas em pedaços. O cérebro preenche depois as lacunas por um processo chamado confabulação. O cérebro, de forma natural e inconsciente, tenta produzir uma descrição coerente do que aconteceu, mas como as lacunas são exatamente preenchidas depende dos sentimentos da pessoa na altura da recordação, das sugestões de outras pessoas acerca do acontecimento recordado e dos nossos próprios relatos do que aconteceu. Dado que, para começar, a recordação é seletiva e que muitos detalhes são inevitavelmente deixados de fora, a imagem final recordada pode ir desde uma representação bastante precisa até uma completa invenção.

Estes efeitos representam apenas algumas das formas como a observação e a memória humanas podem ser influenciadas pelo estado subjetivo do observador. Para evitar estas distorções a investigação científica limita a observação humana a circunstâncias em que é menos provável que as aberrações conhecidas da percepção e da recordação ocorram. Nas ciências naturais, a maior parte ou mesmo todas as observações são feitas através de instrumentos, como voltímetros, contadores de Geiger e telescópios, cujo comportamento é bem conhecido e altamente previsível. Os resultados são então gravados em suportes relativamente permanentes, como papel fotográfico, fitas magnéticas ou discos de computador. Nas ciências sociais, técnicas como a amostragem duplamente cega [2] e a análise estatística de dados isolam o observador do resultado da experiência. Estes processos fornecem a garantia importante de que os dados não são distorcidos pelo estado subjetivo do experimentador.

Parte-3