Autor: Patrick J. Hurley
Tradução: Álvaro Nunes
Fonte: Filosofia e Educação: Original: A Concise Introduction to Logic, Wadsworth, Belmont, 2000, pp. 588-606

pseudoA idéia de que a mente humana no seu esforço para compreender a realidade é capaz de operar a níveis diferentes é tão velha quanto a própria filosofia. Há vinte e quatro séculos Platão traçou uma distinção entre aquilo a que chamou opinião e conhecimento. Ele disse que a opinião é uma espécie de consciência incerta, confinada ao particular, inexata e sujeita à mudança, ao passo que o conhecimento é certo, universal, exato e eternamente verdadeiro. Cada ser humano começa por operar na vida ao nível da opinião e só com grande luta e esforço pode escapar-lhe e elevar-se ao nível do conhecimento. Chama-se a esta luta educação e abre os olhos da mente para realidades que do ponto de vista da opinião não podem sequer ser imaginadas. 

A distinção atual entre ciência e superstição é a equivalente moderna da distinção de Platão entre ciência e opinião. Todos reconhecem que a ciência revelou verdades extraordinárias acerca do mundo natural. Pôs homens na Lua, erradicou doenças mortais e conduziu-nos à era dos computadores. Quase todos reconhecem também que a superstição pouco mais é do que tolice. Leva as pessoas a recearem passar por debaixo de escadas, partir espelhos e derramar sal. Quase toda a gente concorda que se uma afirmação tem fundamento científico, provavelmente vale a pena acreditar nela, ao passo que se tem por fundamento a superstição, provavelmente não vale a pena. Onde as pessoas não concordam, porém, é no que constitui ciência e no que constitui superstição. Aquilo a que uma pessoa chama ciência, outra chama tolices supersticiosas.

Tanto a ciência como a superstição recorrem a hipóteses, pelo que os quatro critérios apresentados na Secção 9.5 para avaliar hipóteses são relevantes para a distinção entre ciência e superstição. Estes critérios são a adequação, a coerência interna, a consistência externa e a fecundidade. Mas a distinção entre ciência e superstição também envolve elementos psicológicos e volitivos. Envolve fatores como de que forma os estados subjetivos do observador influenciam o modo como vê o mundo e de que forma as suas necessidades e desejos têm um papel na formação das suas crenças. Consequentemente, para explorarmos a distinção entre ciência e superstição, temos de introduzir critérios que incluam estes elementos psicológicos e volitivos. Os critérios que sugerimos são o apoio em provas, a objetividade e a integridade. A descrição que iremos fazer do apoio em provas inclui a adequação e a fecundidade e a descrição da integridade inclui a adequação, a coerência interna e a consistência externa.

A ciência e a superstição são, em larga medida, pólos opostos. Onde a atividade científica reconhece a importância do apoio em provas, a objetividade e a integridade, a superstição ignora-as. Conseqüentemente, estes critérios podem ser usados como uma espécie de régua para medir as diversas crenças que as pessoas têm acerca do mundo. Quanto mais essas crenças são apoiadas em provas, são objetivas e resultam de uma investigação que reflete integridade, mais se aproximam do ideal de ciência e mais justificadas estão. Inversamente, quanto mais as nossas crenças não partilham estas características, mais se aproximam do “ideal” de superstição e menos justificadas estão.

Chamamos, no entanto, a atenção para que dizer que uma crença está justificada não é dizer que é de certeza absoluta verdadeira. Como vimos na Secção 9.5, todas as crenças que têm origem na ciência são na melhor das hipóteses tentativas. Mas essas crenças são as melhores que por agora podemos ter. Do mesmo modo, dizer que uma crença não está justificada não é dizer que é absolutamente falsa. É muito possível que uma crença que se funda hoje na superstição possa amanhã fundar-se na ciência. Mas essa crença não merece aquiescência hoje. Pode-se encontrar uma analogia no lançamento dos dados. Nenhuma pessoa com juízo apostaria um para um em que um par de dados sairá “snake eyes” [1] no próximo lançamento, mesmo que perceba que amanhã se possa descobrir que os dados estavam viciados a favor deste resultado.

 

Apoio em provas

Na secção anterior deste capítulo vimos que as hipóteses em si mesmas são meras conjecturas e que antes que acreditemos nelas devem ter o apoio de provas. Esta regra aplica-se quer às hipóteses que sustentam a ciência quer às que sustentam a superstição. Esta regra é cumprida à risca na ciência, mas é freqüentemente ignorada no reino da superstição. Por exemplo, no século XVI Copérnico formulou a hipótese de que o Sol é o centro do nosso sistema planetário e que a terra gira em torno do Sol – em oposição à hipótese ptolemaica dominante, que colocava a terra no centro. Nos anos que se seguiram, o telescópio foi inventado e foram feitas milhares de observações que confirmaram a hipótese copernicana e infirmaram a hipótese de Ptolomeu. Sem estas observações, a hipótese copernicana nunca teria sido adotada.

Por oposição, considerem a superstição segundo a qual permitir que um gato preto cruze o caminho de alguém trará má sorte. Nunca foram coligidas quaisquer provas que apóiem esta hipótese. Nunca foram levados a cabo quaisquer testes nem realizadas quaisquer experiências. É possível que numa ocasião ou noutra alguém permita que um gato preto cruze o seu caminho e depois perca dinheiro na bolsa ou seja ferido num acidente de carro, mas seria certamente irracional acreditar que permitir que um gato preto cruze o caminho de alguém cause a perca ou o acidente. Um tal raciocínio constitui um caso clássico de falácia do post hoc ergo propter hoc (falsa causa). Mas apesar da falta de provas, muitas pessoas acreditam na hipótese do gato preto.

Contudo, antes de investigarmos mais a necessidade de provas, temos de investigar primeiro o que é considerado como uma prova. Deve o testemunho de autoridades ser considerado como uma prova? E de autoridades antigas? A resposta é que as hipóteses científicas são acerca do mundo natural, pelo que apenas as observações do mundo natural são consideradas como provas. Cada experiência científica é uma questão que o experimentador pergunta sobre o mundo e o resultado dessa experiência é a resposta da natureza. O problema com o testemunho de autoridades é que não temos conhecimento certo de que a avaliação que a autoridade faz está correta. O mesmo é verdade da Bíblia. Não temos nenhuma forma de saber se o que a Bíblia diz sobre o mundo natural é verdade. Se alguém respondesse que a Bíblia é inspirada por Deus, a resposta óbvia seria: como é que sabemos? Temos alguma prova observacional a seu favor? Os apelos a autoridades e a Bíblia equivalem a fugir à responsabilidade de explicar.

Outro gênero de prova que é considerado duvidoso é a prova anedótica. Supõe que tens cancro e que um amigo te diz que se comeres alho, curas-te. Decides seguir este conselho e depois de comer um dente de alho todos os dias durante um ano, o cancro entra em remissão. O alho curou o cancro? A esta espécie de prova chama-se anedótica e é normalmente rejeitada pela ciência. O problema da prova anedótica é que é demasiado isolada para estabelecer qualquer ligação causal. Deste modo, a prova do alho ignora as milhares de pessoas com cancro que comeram alho e não se curaram; e ignora as milhares de pessoas em que se deu a remissão espontânea do cancro e não comeram qualquer alho. Além de que não é possível fazer o relógio andar para trás e tentar a experiência outra vez.

Uma das características fundamentais do processo de obtenção de provas científicas é que uma experiência possa ser repetida sob condições controladas. Isto significa que a experiência tem de poder ser repetida por cientistas diferentes em ocasiões e locais diferentes. A replicabilidade ajuda a assegurar que o resultado da experiência não resulta de algo peculiar a um determinado experimentador a operar num único local e numa única ocasião. Além de que as condições controladas são desenhadas para eliminar a influência de fatores estranhos. Talvez, no que se refere ao exemplo do alho, a cura fosse efetuada não pelo alho mas por outra coisa que comeste, por algum dos outros milhares de fatores que ocorreram durante este período ou por alguma combinação desses fatores.

As provas apresentadas para apoiar as hipóteses supersticiosas raramente podem ser repetidas e, quando podem, não apóiam a hipótese. Por exemplo, a crença em fantasmas é normalmente apoiada pelo que um ou mais indivíduos alegam ter visto numa única ocasião. Esta ocasião não pode ser repetida. Às vezes afirma-se que a crença em fenômenos psíquicos como a percepção extra-sensorial é suportada por experiências com cartas Zener: cartas impressas com cruzes, círculos, linhas onduladas, estrelas, e quadrados, cujas imagens um observador pode “transmitir” a um receptor com capacidades psíquicas. Mas quando estas experiências foram repetidas sob condições cuidadosamente controladas, o resultado foi sempre o que seria de esperar que ocorresse por mero acaso.

Outro defeito das hipóteses supersticiosas é serem freqüentemente tão vagas que é praticamente impossível confirmá-las de forma inequívoca. Por exemplo, no caso da hipótese do gato preto, o que, realmente, se entende por má sorte? O que é interpretado hoje como má sorte pode revelar-se amanhã uma sorte incrível. Se uma pessoa perde 1 000€ hoje na bolsa, isso pode levá-la a ser mais cuidadosa e fazer com que não perca 10 000€ no futuro.

Por oposição, as hipóteses da ciência são freqüentemente construídas em linguagem matemática ou, pelo menos, podem ser traduzidas para expressões matemáticas. Este fato propicia confirmações extremamente precisas e é em larga medida responsável pelo sucesso extraordinário de que a ciência tem gozado nos últimos 500 anos. Por exemplo, em 1802 o químico francês Joseph Louis Gay-Lussac formulou a hipótese de que se se subisse em 1 grau Celsius a temperatura de qualquer gás contido num recipiente fechado, a pressão do gás aumentaria 0.3663 por cento. A hipótese foi testada milhares de vezes por químicos e por estudantes em laboratórios de química e revelou-se sempre correta.

Relacionado de perto com o problema da vagueza está a amplitude da hipótese. Se a hipótese é concebida com uma amplitude e uma abrangência tais que até provas contraditórias servem para confirmá-la, então a hipótese não é de fato confirmada por nada. Supõe, por exemplo, que um profissional de cuidados de saúde inventava uma hipótese sobre dieta. É garantido que seguir esta dieta te vai fazer sentir bem, mas antes que isso ocorra pode fazer-te sentir muito mal ou como te costumas sentir. Após teres seguido a dieta durante seis meses dás a saber que te sentes como antes. O profissional responde que a tua experiência confirma a hipótese, porque é isso que a dieta supostamente faz. Por outro lado, supõe que após seis meses te sentes-te muito bem ou talvez muito mal. Novamente o profissional dirá que a tua experiência confirma a hipótese. As hipóteses deste tipo não são genuinamente científicas.

O filósofo Karl Popper descobriu em 1919 este mesmo problema a respeito das hipóteses. Em resposta, defendeu que qualquer hipótese genuinamente científica tem de ser forjada de forma suficientemente precisa para que proíba que certas coisas aconteçam. Por outras palavras, a hipótese tem de ser falsificável. Nos anos que se seguiram ao seu anúncio, muitos filósofos criticaram o critério de falsificabilidade de Popper porque, em rigor, as hipóteses raramente podem ser refutadas. Mas, como vimos na Secção 9.5, as hipóteses podem ser refutadas (ou tornadas menos plausíveis). Desse modo, podemos reter a inspiração fundamental de Popper exigindo que qualquer hipótese genuinamente científica seja refutável. Isto significa que a hipótese deve ser forjada de forma suficientemente precisa para que as provas possam pô-la em causa. A hipótese gravitacional de Newton, por exemplo, satisfaz este critério porque se fossem descobertos dois corpos grandes que não se atraíssem mutuamente isso tenderia a infirmar a hipótese. Mas a hipótese dietética que acabamos de mencionar não passa o critério de refutabilidade, porque nenhum resultado poderia alguma vez pô-la em causa.

Um problema intimamente associado com as hipóteses excessivamente amplas é o que surge a propósito daquilo a que se chama modificações ad hoc das hipóteses. Por exemplo, supõe que és um sociólogo e que estás a fazer uma investigação sobre o alcoolismo. Formulas a hipótese de que o alcoolismo é causado por fatores culturais que tornam atrativo o consumo de álcool. Contudo, quando reúnes provas para apoiar esta hipótese descobres que são relativamente poucas as pessoas vindas dessas culturas que são alcoólicas. Assim, modificas a hipótese para dizer que o alcoolismo é causado por fatores culturais mas apenas quando existe uma predisposição genética. Mas nessa altura descobres que muitos alcoólicos bebem para ajudar a suportar a dor da depressão e outros problemas psicológicos. Posto isto, modificas a hipótese mais uma vez para ter em conta este fato. Investigações posteriores mostram que os padrões de consumo dos pais têm influência, pelo que acrescentas outra modificação. Chama-se a estas mudanças modificações ad hoc (“para isto”) porque são introduzidas apenas para encobrir um problema ou anomalia que não foi identificado quando a hipótese foi inicialmente concebida.

O problema com as modificações ad hoc é que o seu propósito é escorar uma falha nas provas que apóiam a hipótese original. À medida que são acrescentadas mais modificações, a hipótese torna-se auto-suportada; torna-se uma mera descrição do fenômeno que supostamente explica. Por exemplo, supõe que introduzimos uma certa hipótese h para explicar a ocorrência de um certo fenômeno x num grupo de entidades A, B, C, D, E. À medida que são acrescentadas modificações ad hoc, descobrimos que A tem x devido a algum atributo único de a, B tem x devido a b, e assim por diante. No fim, a nossa hipótese afirma que quem quer que tenha os atributos a, b, c, d, e exibe x. Mas o conjunto de atributos a, b, c, d, e é meramente uma descrição de A, B, C, D, E. Se tivéssemos de perguntar por que a entidade A tem x, a resposta seria que A tem x devido a a, onde a é meramente algo único que A tem. Aplicando esta análise à hipótese do alcoolismo, se perguntamos por que determinada pessoa (chamemos-lhe Silva) é alcoólico, a resposta é que Silva é alcoólico devido a ter determinado atributo s que o faz ser alcoólico. A explicação é vazia.

Outro problema com as modificações ad hoc é que resultam em hipóteses que são tão complicadas que se torna difícil aplicá-las. A ciência favoreceu sempre a simplicidade em detrimento da complexidade. Dadas duas hipóteses que explicam o mesmo fenômeno, a mais simples das duas é sempre a preferível. Em parte esta preferência é estética. A hipótese mais simples é mais “bonita” do que a mais complexa. Mas a preferência pela simplicidade também resulta da aplicação daquilo a que se chamou a “navalha de Occam”. Este é um princípio, introduzido pelo filósofo do século XII Guilherme de Occam, que sustenta que as entidades teóricas não devem ser multiplicadas sem necessidade. Por que contentar-se com uma teoria complicada quando uma mais simples faz o trabalho igualmente bem? Além disso, a mais simples é mais simples de aplicar. Voltando à questão do apoio em provas, uma das formas mais seguras de saber que as nossas hipóteses estão apoiadas em provas é que levam a predições que se revelam verdadeiras. Cada predição verdadeira representa um pilar que apóia a hipótese. Mas algumas predições são melhores do que outras, e as melhores são as que revelam formas de ver o mundo que nunca teriam sido sonhadas sem as hipóteses. Se a hipótese conduz a predições deste gênero, e se essas predições são confirmadas pelas provas, então a hipótese adquiriu um tipo muito especial de apoio. Uma tal hipótese revela verdades escondidas sobre a natureza que nunca teriam sido identificadas sem ela.

Um exemplo clássico de uma predição deste gênero resultou de uma hipótese que está na base da teoria da relatividade geral de Einstein. Uma das conseqüências preditas por esta hipótese é a de que a luz é afetada pela gravidade. Em particular, a hipótese predisse que um raio de luz vindo de uma estrela e passando pelo Sol deveria curvar-se na direção do Sol. Como conseqüência, a posição da estrela por relação a outras estrelas pareceria ser diferente da que era normalmente observada. É óbvio que testar uma tal hipótese em circunstâncias normais seria impossível, porque a luz do Sol é tão brilhante que bloqueia completamente a luz das estrelas. Mas poderia ser testada durante um eclipse solar. Uma oportunidade dessas surgiu em 29 de Maio de 1919 e os cientistas aproveitaram-na. A predição revelou-se verdadeira e, em conseqüência disso, a teoria de Einstein foi rapidamente adotada. Em poucos anos a teoria levou à descoberta da energia atômica.

As hipóteses que produzem predições arrojadas e desconhecidas são em larga medida responsáveis pelo progresso na ciência. E é precisamente este gênero de predições que, defende o filósofo Imre Lakatos, distingue a ciência da pseudociência. É óbvio que nem todas as hipóteses científicas levam a predições tão impressionantes quanto as de Einstein, mas na pior das hipóteses podem ser integralmente ligadas a hipóteses mais abrangentes, mais amplas, que levaram a tais predições. Por oposição, as hipóteses que estão na base da astrologia existem há vinte e sete séculos e não produziram uma única predição impressionante que tenha sido provada nem uma única visão inovadora do curso dos acontecimentos humanos. Não produziram qualquer grande plano para o futuro da civilização nem qualquer pista sobre descobertas futuras em física ou em medicina. Esta falta de progresso ao longo dos séculos é uma das razões que levaram o filósofo Paul Thagard a concluir que a astrologia é uma pseudociência.

Parte-2