Fonte: Deutsche Weeler

Por: Stefan Heinlein

 

Axel Meyer

Entrevista concedida pelo biólogo evolucionista Axel Meyer, professor de Biologia Evolutiva pela Universidade de Constança, na Alemanha, ao jornal Deutsch Weller. 

“As ideias do intelligent design ou do criacionismo não são teorias cientificamente sustentáveis. Tampouco são discutidas por cientistas que se levem a sério”.  

DW: Que importância têm Charles Darwin e sua Teoria da Origem das Espécies hoje em dia para o senhor, na qualidade de cientista moderno?

Meyer: Ela é o fundamento da moderna biologia evolutiva. Naturalmente, Darwin não podia prever tudo o que aconteceria nos 150 anos seguintes. Entretanto, a seleção natural, como ele a descreveu, continua sendo o principal mecanismo através do qual a evolução funciona.

DW: Pode-se dizer que Darwin é um dos maiores representantes da ciência natural da Era Moderna?

Meyer: Seguramente. Eu acredito, sim, que seja justificado o status de culto, ou de astro, que ele possui, talvez ao lado de Freud ou de Einstein.

DW: No século 19 o Gênesis bíblico era a única explicação satisfatória para o surgimento da humanidade. De quanta coragem precisou Darwin para divulgar, em 1859, sua Teoria da Origem das Espécies?

Meyer: Certamente ele tinha consciência do que representavam suas conclusões no campo da biologia também para a religião, ou a compreensão da origem, ou o significado do ser humano. E esta talvez seja parte da explicação por que ele esperou tanto até publicar seu livro [Sobre a origem das espécies através da seleção natural]. Havia também constelações familiares, o fato de sua mulher ser muito religiosa. Com certeza estes são aspectos parciais que o fizeram hesitar com a publicação.

DW: Darwin não deu uma explicação para o aparecimento do primeiro ser, de onde veio a primeira célula. Ele renunciou conscientemente a isso.

Meyer: Ele não disse muito a este respeito e, de certo modo, “de onde vem a vida” continua sendo uma questão muito debatida. Tão logo a vida aparece, todos os cientistas estão de acordo que entram em ação os mecanismos descritos por Darwin, relativos à variação e à seleção, fazendo com que a vida se desenvolva neste grau de complexidade e diversidade.

DW: Ele sabia que as ciências naturais, e assim sua Teoria da Evolução, batem aqui em seus limites? Ela não pode se confundir com a teologia, com a fé.

Meyer: Esta é uma questão difícil. Ele próprio deixou de acreditar num Deus misericordioso quando sua filha predileta faleceu. Talvez tenha sido este o último obstáculo à publicação do livro. Acho que mais tarde ele próprio se definiu como agnóstico, não crendo, portanto, na existência de Deus. Porém não estou certo se ele, por princípio, via uma contradição irreconciliável entre uma crença divina, ou religiosidade em geral, e uma visão científica do mundo.

DW: Pode um cristão declarado acreditar na Teoria da Evolução? Do seu ponto de vista, como cientista, é possível conciliar Darwin e a fé cristã?

Meyer: Pessoalmente, eu diria que não. Para mim essas duas visões das coisas se opõem, sim. Acho que é pouco comum um biólogo evolucionista ser religioso.

DW: Existe uma alternativa científica séria para a Teoria da Evolução à la Darwin?

Meyer: Não, não existe. As ideias do intelligent design ou do criacionismo não são teorias cientificamente sustentáveis. Tampouco são discutidas por cientistas que se levem a sério. Só se discute o que elas poderiam ocasionar, do ponto de vista sociológico ou sociopolítico, para o ensino da Biologia Evolutiva ou, em geral, para a formação de uma visão científica nas escolas e universidades. Porém [essas ideias] não originam teorias comprováveis nem representam uma alternativa científica para as ideias darwinianas.

DW: Então ficamos com a conclusão de que o homem é um macaco, pelo menos biologicamente?

Meyer: Ele descende dos macacos, no sentido de que possuímos ancestrais comuns, os primatas. A maioria dos evolucionistas não definiria o ser humano como o ápice da Criação e sim – apesar de todas as suas óbvias especificidades – o consideraria simplesmente mais uma espécie.

DW: A Teoria da Evolução continua hoje sobre fundamento científico sólido, ou é preciso avaliar muito do que Darwin desenvolveu há 150 anos de outra forma, à luz das novas pesquisas?

Meyer: Algumas coisas Darwin não entendeu, ou entendeu errado. Consideremos, por exemplo, que a deriva dos continentes só foi estabelecida mais tarde por Alfred Lothar Wiegener. Assim, Darwin compreendeu de forma incorreta certos aspectos da distribuição geográfica das espécies pelos diferentes continentes.

E naturalmente ele viveu numa época anterior à descoberta dos genes e da genética. A redescoberta das Leis de Mendel (1822-1884) e as revoluções causadas pela biologia molecular e, agora, pela genômica são coisas que ele não poderia haver previsto, é claro. Porém essas novas disciplinas levaram antes a uma compreensão mais profunda da biologia evolutiva, em vez de revelar quaisquer contradições nas ideias darwinianas.

DW: Novas espécies aparecem e se modificam ao se adaptar às alterações das condições ambientais – este é o cerne da Teoria da Evolução. Hoje em dia se fala nas consequências do aquecimento global, da mudança climática. Podemos encarar essa dinâmica de forma despreocupada, à luz das constatações de Darwin?

Meyer: Depende. De certo modo, trata-se apenas de mais uma pressão seletiva, ou mais uma força que levará à seleção de determinados indivíduos, em detrimento de outros. O homem não altera apenas o clima, mas também todo o meio ambiente na Terra, basta pensar no desmatamento das gigantescas florestas tropicais na Ásia ou na América do Sul. A destruição do espaço vital ocasiona uma extinção em massa como só se viu quatro ou cinco vezes na história do planeta. Nós nos encontramos numa fase de extinção em massa.

DW: Então a evolução permanece um processo contínuo, que nunca cessa, mesmo sob estas novas condições ambientais?

Meyer: Claro. Ela será possivelmente até acelerada. Ao provocarmos uma mudança climática num período – do ponto de vista geológico – relativamente breve, as mutações serão mais velozes. Isso, na escala geológica, não é nada demais, pois a Terra já se esfriou ou se aqueceu diversas vezes, é claro. Mas não por influência humana.