Autor: Fabrício Roveri

Pensador presoO ateísmo é coisa recente. Muito recente.

Seu marco inicial pode ser objeto de discussão calorosa, mas existe uma espécie de consenso científico de que o grande divisor de águas veio com a publicação da Origem das Espécies, a parcos 150 anos.

Não que antes disso não houvessem questionamentos ateístas. Eles são observáveis até mesmo na Grécia Antiga.

Mas esses questionamentos careciam de base; era impossível eliminar deus da equação de forma intelectualmente satisfatória, uma vez que a humanidade nada tinha para colocar no lugar dele.

Indiscutivelmente Darwin foi, de longe, quem mais fez barulho em todo o meio científico até hoje. Ouso dizer que em toda a história da humanidade.

Ao contrastarmos esses 150 anos com os 400.000 da existência do ser humano percebemos que acabamos de acordar. Se a história da humanidade estivesse contida em um único dia terrestre, o ateísmo só teria sido realmente possível às 23h59m30s (sim, eu fiz a regrinha de três…). O ateísmo ainda está longe de ser uma diretriz do sistema social: ainda somos a anomalia.

O golpe de Darwin foi duro, e ainda não foi assimilado. Para ser mais realista, tem gente que ainda nem sabe que foi atingida. A religião – e antes dela a simples crença em algo não-natural – está espalhada por toda a nossa história, e continua em pé, com muito fôlego.

Mas a própria ciência hoje consegue explicar essa resistência, novamente com a ajuda de Darwin. Existem algumas teorias (cujos primeiros experimentos comprobatórios estão começando a surgir) que colocam a evolução como sendo responsável por deixar nossas mentes aptas para crer. Como que se programadas para aceitar a existência de Deus.

Uma outra evolução da teoria (perdoem o trocadilho) desdobrou-se no campo da sociologia, e hoje temos a memética (ciência que estuda os memes). Estamos começando a compreender porque algumas “idéias” duram mais que outras, e sobrevivem a tantas mudanças culturais e em ambientes tão hostis à elas. A memética oferece hoje uma boa teorização do por quê temos o cristianismo tão presente,em detrimento de outros inúmeros cultos que concorreram com ele durante seu surgimento.

As constatações que faço aqui é que:
– o ateísmo é historicamente muito recente;
– a própria evolução “preparou” nossas mentes para rejeitar esse conceito;
– as religiões contam com fortíssimos complexos de memes, informações “pegajosas” que se replicam ao longo das gerações, perpetuando sua existência.

Portanto, a fé religiosa ou a crença em qualquer coisa não demonstrável cientificamente está muito longe de ser classificada com o maniqueísmo desatento de alguns ateus mais apaixonados que cuidadosos. Não podemos assumir a religiosidade teísta simplesmente como “sinal de ignorância” ou “inferioridade intelectual”.

Essa conclusão, enfim, remete-nos à proposta desse texto: por quê sermos tolerantes com as religiões? Um colega de discussão me questionou sobre a necessidade de se empenhar um combate contra as religiões. Digo que essa postura não seria apenas improdutiva (devido aos fatores que elenquei acima), mas também contraproducente, uma vez que promoveria uma maior segregação social dos ateus. Eles, os fundamentalistas religiosos, estão nos espancando, e fazendo figa para que revidemos na mesma moeda. Isso, é claro, serviria para encher-nos daquilo com o qual os acusamos: intolerância.

Vivemos em um mundo que respira religião; convém a nós sermos cuidadosos. Esse mesmo interlocutor questionou se haveria um caminho curto para uma “vitória ateísta”. A ele digo que esse é o nosso maior erro: escolhermos apenas as empreitadas onde possamos triunfar.

O filósofo Daniel Dennett esse ano, na TED (Tecnology, Entertainenmt & Design, na Califórnia) revelou sua fórmula para a felicidade: encontrar algo maior do que a si próprio e dedicar sua vida a isso. Compartilho essa regra básica com ele. Entendo que algo “maior que eu” signifique um desafio mais trabalhoso do que eu possa enfrentar sozinho, mais complexo do que eu possa pensar por mim, e mais longo do que todo o meu tempo de vida.

Não estarei aqui colhendo os frutos do ateísmo. Colho os frutos de muitas outras lutas, é verdade. Por isso entendo – e escolho – meu papel nessa história: sou um entre aqueles milhares de defensores do livre pensamento, que decidiu regar e cuidar da semente que Darwin plantou, 150 anos atrás.