Autor: Luiz Bicalho

CapitalismoEm muitas comunidades e sites ateístas existe uma discussão sobre a ética do ateísmo. Outros procuram explica-la. Eu, particularmente, tenho uma opinião um pouco diferente sobre este assunto. Para mim, a filosofia (seja ela uma filosofia materialista que, por definição, é ateista, ou uma fisofia idealista que é teista) teve e tem um desenvolvimento histórico. A etica, como parte da filosofia, também partilhou deste desenvolvimento.

E cada filosofia tem a sua ética. O mito da “ética universal”, de “valores comuns a toda a humanidade” é equivalente ao mito da existência de Deus. Corte-se este mito e cada um construirá (ou absorverá) uma ética diferente. Algumas serão ateístas (porque a base de sua filosofia é materialista) vegetarianas, como alguns propagam. Outras não.

Pessoalmente, a base da minha filosofia é que se chama de materialismo histórico (que se convencionou chamar de marxismo). Isto implica uma compreensão histórica do que são as diversas éticas e de como elas se originam. Uma opinião preliminar me diria que a ética ateísta vegetariana é uma ética pequeno-burguesa. Por quê?

Tem razão quem disser que é mais “econômico” produzir alimentos sem fazer a criação de animais. Em determinados períodos históricos isso não era verdade e comer carne era necessário para a sobrevivência econômica – para o crescimento da forças produtivas da humanidade. Hoje, isto não é assim.

Outra coisa é se poderíamos prescindir dos animais para todo o tipo de fim, inclusive para experiências cientificas com remédios ao invés de experiências com animais. Por enquanto, a não ser que alguém me de um argumento muito bom contra, prefiro testar novos remédios e novas vacinas em animais do que um humanos,  prefiro que os animais sofram e morram que os humanos. Mas isto é cruel com os animais? Claro que é. Apenas o nosso desenvolvimento cientifico só permite, no momento atual, duas opções com relação a isso – ser cruel com os animais ou ser mais cruel ainda com os humanos (que sempre sofrem com os remédios e vacinas, já que o teste não é perfeito).

A alimentação é um pouco diferente. Francamente, não sei se toda a humanidade virasse vegetariana se o resultado seria uma raça humana mais saudável. As pessoas são diferentes. Parei de comer carne (minto, ainda como peixe) por que isso me fez bem. Mas será que é verdade para todos? Admitamos que sim (eu sei, já provaram que vários cereais podem suprir a maior parte das proteínas que os humanos necessitam. E já se provou que vários humanos têm alergia ao glúten, componente da maioria dos cereais….dai que uma coisa pode ser incompatível com a outra).  Ainda falta um problema – porque se o cultivo de alimentação em forma de vegetais, que é mais barato que produzir bois (de longe a carne mais consumida) não é aplicado? Porque o capitalismo funciona não para produzir o mais barato ou o mais simples, o que melhor faz bem a vida, mas funciona para produzir o que dá mais lucro!

Se carros a gasolina dão mais lucro que bondes elétricos, do que ônibus, para que termos mais ônibus, bondes, metros, transportes públicos cuja venda não é tão alta, se podemos vender carros com capacidade de transportar 5 pessoas para transportar 1 pessoa? Para que construir lavanderias coletivas em todos os prédios e bairros, se dá mais lucro vender maquinas de lavar e secar para toda pessoa? O capitalismo funciona assim – com base no lucro e não nas necessidades da humanidade. Minha conclusão – aqueles que procuram uma solução “etica” para o capitalismo invariavelmente conseguem no máximo se mostrar indignados com os outros que não concordam com esta opinião. Agora, é um direito de quem quiser defender tal posição (ética vegetariana) defender seus pontos de vista, daí que não brigo com aqueles que a defendem, embora não seja a minha opinião, a minha filosofia, a minha ética.

Entendo que eles a considerem a “melhor ética”. Seria ridículo, e qualquer um pode ver isso, se eles achassem que existe outra ética melhor que essa e defendessem a “ética pior”. Eu, é claro, prefiro a minha ética: “bom é aquilo que ajuda a classe trabalhadora a caminhar em direção ao socialismo”. Para quem quiser ver um tratado maior sobre o assunto, o melhor que li é um livro de Trotsky – Nossa Moral e a deles, que pode ser encontrado em Moral e Revolução – Leão Trotski – 1936

Observe cada um de nós tem a sua ética. A minha é “simples”, para mim e para os que defendem o que defendo. Eu defendo que é ético aquilo que une os oprimidos para defender-se dos opressores. Qual a causa do racialismo, do preconceito racial, das diferenças sociais e materiais, dos preconceitos sociais?

Eles têm uma causa histórica. Observe que durante um sistema escravagista, ninguém pensaria em direitos iguais para escravos e donos de escravos. Escravos, para usar uma expressão do grande filosofo,  Cicero, eram “instrumentos com voz”. Meros instrumentos teriam direitos? O Papa declarou que negros não tinham alma, poderiam ser escravizados.

Na Grécia antiga, mulheres eram propriedades tais quais os cachorros e outros objetos de casa – a musica Mulheres de Atenas retrata bem esta realidade.

No feudalismo, a pessoa tinha o seu “lugar”. Ninguém pensava em estar em outra situação. Ou você era nobre ou camponês. ou voce pertencia a alguma guilda comercial ou industrial.

O que mudou esta situação foi o desenvolvimento econômico, foi sociedade dar um salto em direção ao futuro com o capitalismo.

Só que o capitalismo dá direitos iguais formais, mas não direitos sociais, econômicos iguais. Dai que ele cria e recria as diferenças, numa sociedade onde parecemos ter os mesmo direitos, mas se tenho um problema com a justiça – por exemplo, o seguro do meu carro demora a ser pago pela seguradora, a rapidez com que vou ser atendido em minha pretensão depende do valor do advogado que posso pagar. Alguns, inclusive pela sua riqueza, praticamente se encontram fora das penalidades que a sociedade prescreve – vide os habeas corpus concedidos generosamente no nosso STF.

Fazer o bem não importa a quem é uma generalidade que não resolve o nosso problema, que só cria mais injustiça. Por exemplo, os coitados dos deputados que estão perdendo suas passagens para levar suas namoradas e mulheres em viagens pelo mundo afora, será que temos que fazer o bem para eles e pagar suas passagens em detrimento das escolas e hospitais que estão caindo aos pedaços.

Os coitados dos banqueiros que estão perdendo dinheiro no mundo inteiro com a crise econômica, os coitados dos donos das dividas da GM e Chrysler que estão perdendo dinheiro com a crise econômica, será que temos que dar a estes coitados, pessoas como Bill Gates que antes tinha uma fortuna de 40 bilhões de dólares e agora com a crise viu sua fortuna descer para 20 bilhões, será que temos que fazer o bem que eles reclamam e Obama generosamente concede trilhões e trilhões de dólares para todos estes coitados enquanto que sofrem, vivem e morrem milhões de pessoas que perdem casas, empregos, filhos, casamentos, vida social e tudo mais? Será que para fazer o bem para estes devemos sacrificar e chegar a um mundo como previu o FMI com um bilhão de pobres ganhando menos de 1,24 dolares por dia?

Eu prefiro outro raciocínio – prefiro o raciocínio que privilegia os escravos, os proletários, os famintos em detrimento de todos esses que citei. Porque ao invés de gastar bilhões e bilhões de dólares para salvar banqueiros e “investidores” não podemos gastar bilhões para acabar com a fome no mundo? Porque ao invés de gastar centenas de bilhões de reais no pagamento da divida interna brasileira (cujos maiores credores são os bancos, os bancos e não os correntistas), de gastar bilhões e bilhões para incentivar as fabricas de carros e outros, não podemos gastar estes bilhões para pagar melhor professores, para criar universidades publicas que dêem vagas para todos, para ter laboratórios e professores bem pagos em toda escola publica ao invés destas escolas em petição de miséria que temos? São escolhas e prefiro fazer o bem aos milhões do que fazer o bem para poucos.

Para ler um pouco sobre o assunto:

– Isaac Azimov – Eu, robô (o livro, não o filme), particularmente o ultimo conto.

De Spartacus até Zumbi

Spartacus (em Espanhol) 

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