Fonte: Mundos & Fundos

Existe no Orkut uma comunidade chamada “Evangelize-me se for capaz”. Trata-se de um reduto onde ateus, agnósticos, pagãos, irreligiosos, satanistas, etc. se reúnem para discutir suas razões de terem abandonado o cristianismo (em qualquer de suas denominações).

QUEM TENTA

Por causa do título da comunidade, é frequente que apareçam por lá jovens cristãos sem noção de perigo que se metem a “evangelizar” os infiéis e que, invariavelmente, acabam reduzidos ao ridículo. É tão frequente isso que os membros da comunidade já criaram uma terminologia relacionada, contemplando definições de vários tipos de crentes:

Control-C + Control-V : é o crente que copia alguma coisa de algum site apologético e cola no tópico. Esse tipo geralmente tem apenas uma vaga idéia do que postou. Costuma ter pouquíssima cultura, limitando-se a ler o que o padre/pastor/ministro manda. Geralmente é semi-analfabeto ou analfabeto funcional — o que se evidencia pela péssima ortografia que emprega quando ousa postar mais alguma coisa em resposta às [inúmeras] gozações que sofre.

Posta-e-corre: é o que chega cheio de marra, posta algum conteúdo que acha ser “o máximo” e nunca mais volta, depois de ver como seus pobres argumentos são destroçados como uma peça de carne na boca de uma malta de cães famintos. Geralmente posta, com suas palavras, coisas que leu em sites apologéticos ou que ouviu algum pregador dizer. Tem um grau de alfabetização melhor que o Control-C + Control-V, mas emprega muito pouco sua inteligência. 

João Batista: é o que se orgulha de “pregar no deserto”. Acha-se uma espécie de enviado de Deus e tem orgulho de vir pregar longe de seu ambiente original. Costuma vir cheio de ameaças (do tipo “arrependei-vos pois é chegado o reino dos céus”) e apelando para conceitos abstratos, como o amor incondicional de Deus ou o sacrifício de Jesus.Pessimista: é o que não acredita mais na salvação dos ateus, mas prega porque acha que em algum lugar da Bíblia deus manda pregar a todo mundo (aí ele cita Jeremias, Jonas, Jesus…) 

Muitos desses crentes, em minha opinião, são pessoas boas e honestas que têm um genuíno interesse no bem-estar dos membros da comunidade — que vêem aos infiéis como pessoas ameaçadas de perder algo que é muito precioso aos seus olhos crentes. Claro que há os bestas-quadradas ignorantes e cheios de si que vão lá achando que vão humilhar-nos e saem com a bunda ardendo. Mas acho que a maioria são pessoas sinceras, que certamente ficam muito decepcionadas e ofendidas pela reação que provocam e talvez até se recolham ao silêncio e ao choro depois da tentativa. É no interesse dessas pessoas de caráter que vão lá tentar nos evangelizar que eu escrevo este pequeno manual para evangelização de um ateu/agnóstico/infiel. 

CONHECENDO O ADVERSÁRIO

As pessoas que vocês pretendem evangelizar pertencem a várias categorias diferentes. Tratarem todas de maneira uniforme é o primeiro passo para o fracasso. Veja bem quem são:

Agnóstico: não se define como “crente” em Deus nem “descrente”, mas rejeita toda forma de instituição religiosa. A maioria dos agnósticos admite a existência de deus, mas não aceita a possibilidade de que o homem possa compreendê-lo (assim, se aproximam dos deístas) ou alguma religião explicá-lo. Outros negam totalmente todo aspecto místico e duvidam fortemente da existência de Deus, apenas não ousando afirmá-la por modéstia ou desinteresse (esses se aproximam dos ateus).

Céticos: também chamados de “materialistas”. Rejeitam toda explicação metafísica, admitem apenas o que pode ser provado cientificamente. Alguns podem até ser religiosos, mas não vêem sentido em pensar em um deus que interfere na existência e, por isso, agem como deístas. A maioria termina no ateísmo bem rápido porque o ceticismo e o ateísmo são quase irmãos.

Ateus: além de adotarem uma atitude cética em relação à natureza (negando toda metafísica), ainda chegam a afirmar que não acreditam que Deus exista. Por não acreditarem na existência de Deus (posição a que chegam por consequência direta de uma atitude cética em relação à natureza e agnóstica em relação à religião), os ateus costumam também negar o lado “espiritual” da religião, negando que esta possua “valores” dignos de nota.

Apóstatas: são pessoas que optaram deliberadamente por seguir uma crença oposta ao cristianismo e seus valores. Incluem-se aí os satanistas, os wiccas, os budistas, os muçulmanos, os hare krishnas, etc. 

Pagãos: são pessoas que nasceram em famílias praticantes de crenças opostas ao cristianismo, como as mencionadas no item acima. 

COMO EVANGELIZAR AQUI?

Evangelizar é um conceito quase impossível no contexto em questão porque você só pode evangelizar pessoas que já estejam preparadas para receber o evangelho. Pregar para um ateu sem saber como é exatamente igual a dar facadas no muro de concreto na esperança de abrir um portal dimensional.

Você precisa, primeiro, localizar a pessoa que pretende evangelizar no esquema de crença/descrença que vou descrever a seguir. Dependendo de onde se encontre o objeto de evangelização, você deverá recuar sua estratégia e começar do básico.

Deus: a crença em Deus é fundamental para que você possa evangelizar. Não se pode convencer alguém de que Deus deu seu único filho em holocausto por nossos pecados se esta pessoa não acredita, por exemplo, nem em Deus nem em pecados.

Deus pessoal: não basta que a pessoa creia em Deus, é preciso que ela creia que Deus é um ser dotado de uma personalidade e — mais ainda — de um interesse por nós.

Criação Material e Espiritual : uma vez que a pessoa creia na existência de um Deus pessoal, é necessário que creia que esse Deus — ou algum outro fator — tenha criado um mundo material e um mundo espiritual. A existência dessa dualidade é um ponto central do cristianismo e sem a aceitação desse sistema a “evangelização” se torna ridícula.

Dualismo Bem e Mal: sem crer na oposição necessária entre Bem e Mal é impossível explicar a uma pessoa a origem de tais conceitos, sua relação com Deus e o papel desempenhado por eles (e seus agentes) no grande drama da Salvação.

Como vês, amigo crente, a tarefa de evangelizar a um descrente não é nada fácil. Não é como sair de casa no domingo pela manhã e, no caminho da missa, ver um mendigo pedindo pão e dar-lhe uma moeda. Não é um gesto unilateral e nem pontual. Em vez disso é um processo interativo e, por isso mesmo, arriscado (o crente se arrisca a perder sua crença).

Chumbo GrossoGaranto, porém, que, se levares em conta tudo isto ao planejar sua evangelização, podes até não ter sucesso em evangelizar, mas pelo menos conservarás o respeito dos membros da comunidade e não serás de lá enxotado como um cão sarnento.

Paz! 

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