Fonte: Revista SuperInteressante Edição 265 – maio/2009
Autor: Rodrigo Rezende

Você é ateu? Pode estar negando sua própria natureza. O cérebro nasce programado para acreditar em algum tipo de deus, e a fé não é opção pessoal nem chamado divino: é uma tendência biológica, que se desenvolveu ao longo de milhares de anos de evolução. Essa idéia, que desagrada crentes e ateus e é uma das teorias mais polêmicas entre os cientistas, parece ter sido finalmente comprovada por um novo estudo, realizado por pesquisadores do Instituto de Saúde dos EUA (NIH).

Eles monitoraram o cérebro de pessoas religiosas e descobriram que, quando elas pensam em deus, ativam os mesmos neurônios que todo mundo (crente ou não) usa para formar a chamada “teoria da mente” – a capacidade de entender o que as outras pessoas estão sentindo e simpatizar com elas. E essa habilidade é primordial para as relações humanas: se cada pessoa fosse alheia aos sentimentos das outras, a sociedade como a conhecemos não existiria, seria apenas uma multidão de psicopatas.

Quando o homem começou a formar sociedades complexas, quem tinha o cérebro mais crente se dava melhor – pois, além de acreditar em mitos, também era mais sociável. E isso ajudaria a explicar por que hoje, mesmo com todos os avanços da ciência, a crença no sobrenatural ainda é tão forte. Acreditar esta no nosso DNA.

“Se um grupo de crianças fosse deixado numa ilha deserta, elas acabariam se tornando religiosas”, afirma o psicólogo Justin Barrett, da universidade de Oxford. Ele é diretor de um projeto ambicioso, que passou os últimos anos investigando uma dúvida perene: por que algumas pessoas acreditam e outras não? Barrett não antecipa os resultados do estudo, que deve ser concluído em 2010, mas já tem um palpite. As pessoas não escolhem acreditar ou não; elas já nascem acreditando. “As crianças são propensas a acreditar na criação divina. Já a idéia de evolução não é natural para elas”, diz. É como se você saísse de fábrica com um cérebro crédulo, e só conseguisse transformá-lo em cético depois de muito tempo. Amém.