Consumption is a “systematic act of the manipulation of signs” (1)

(Jean Baudrillard)Consumismo      

As diferenças entre consumo e consumismo dizem respeito, basicamente, a questões de intensidade. O consumismo nada mais é do que uma ação de compra de produtos quaisquer e exagerada, que pouco, ou nada, tem a ver com necessidade concreta.

O consumismo vem substituir um sistema moral mais rígido, como o sistema puritano, e apresenta uma proposta de liberdade hedonista irrefreável. Consomem-se carros, roupas, comidas. Consomem-se as pessoas, as idéias, e qualquer coisa que possa se transformar em produto de troca. Nenhuma novidade até aqui.

Minha preocupação presente passa a ser em como o ateísmo pode contribuir para a discussão sobre consumismo, ajudar a pensar a questão, trazendo novos coloridos para o tema. Não de forma impositiva ou definitiva, mas como meio para podermos repensar alguns parâmetros sociais.

Eis o primeiro problema: Ateísmo pode apresentar situações onde vire artigo de consumo? Pode virar uma espécie de moda, ainda que estranha, que resulte na venda de livros de qualidade duvidosa, seja capa de revistas ou tema da semana e tenha, digamos, 15 minutos de fama? Pode vir a ser uma moda ser ateu?

Pessoalmente, feliz e infelizmente, creio que não. Não por ser impossível, mas francamente, é altamente improvável. Ateísmo tende a se apresentar como um posicionamento cético, que envolve tanto uma crítica ao que é colocado, como uma crítica a si mesmo e seus atos. E consumismo se alimenta da ausência de crítica

Não que todos os ateus sejam sempre críticos, imunes a qualquer propaganda e ação de consumo. Não somos. Somos humanos e como tais, podemos ser influenciados. Mas o próprio produto “ateísmo” é algo que não é facilmente transposto para um modismo. Ser ateu não é algo que traga conforto. Não traz satisfação imediata, ao contrário, é algo que traz dúvidas, sentimentos de certa melancolia e finitude. E isso porque não acompanha a ilusão de que “tudo vai acabar bem”, que mesmo os religiosos adeptos do apocalipse, no fundo, pensam. Não cremos em um Deus para nos redimir e trazer “a nós, os verdadeiramente fiéis” para seu lado quando o “Grande Desbarrancamento Final” ocorrer.

Entremos então para o segundo, e razoavelmente mais útil, problema a ser pensado (as opiniões aqui expressadas não pretendem, de forma alguma, fechar as questões levantadas): Como o Ateísmo pode pensar o consumismo?

Consumismo é um ato hedonista e objetal. Busca realização na prática de aquisição de produtos-fetiche para satisfazer uma angústia existencial que “consome” o consumidor-consumista de forma desgastante. Hum, será que essa frase dava um bom slogan? Continuando, o consumo exacerbado só existe porque existe de fato uma demanda interna e uma oferta externa de “satisfação”. Nos alimentamos porque nosso corpo, de algum modo, pede comida e se “angustia quando tem fome. O bizarro é que o corpo também se angustia quando não tem fome, mas vê alimentos “chamativos”, ou seja, identifica aquela “oferta” como uma possibilidade e “passa” a necessitar daquilo.

O consumo “religioso” opera o milagre de passar pelos mesmos mecanismos, direciona uma angústia um pouco mais imprecisa, talvez uma somatória de todas as “fomes” que o corpo e a mente sentem, e direcionam para uma necessidade de se “Ter” este ou aquele Deus. As pessoas querem um produto que as satisfaça, e Deus, sem dúvida, um “produto” onipresente e onipotente, é algo bastante desejável para se ter “sempre perto de você”. É de mil e uma utilidades um ser que pode operar milagres, que serve tanto para “lavar a alma” quanto protege você do mal, tipo um inseticida cósmico. Deus é um inseticida cósmico. Deus é um banco que guardará seu bem mais precioso, sua alma, por apenas pequenas taxas mensais de 10% do que você produzir. Deus é um sabão em pó.

Assim como um perfume, sei lá, “Primitive”, vai fazer você conquistar mulheres e usar bem seu tacape, a Madame  Dindinha (não confunda com as outras) VAI trazer a pessoa amada em até 7 dias, orar vai trazer seu empego de volta e curar o câncer de sua avó, e fazer você viver no paraíso, um lugar cheio de gente bonita fazendo cooper, tipo aquele anuncio de condomínio que estão construindo. E com anjos personal-trainners!

Ou vocês achavam que frases como “In God We Trust” em notas era mero acaso? 

Não é nenhuma coincidência que uma nação construída por grupos de peregrinos tenha trazido tantas “contribuições” para o capitalismo e o consumismo. De certa forma, os puritanos e afins, apresentam uma característica mais hedonista do que os católicos, a de satisfação imediata, sem intermediários, com o Grande Produto que é Deus

Os católicos, para não ficarem atrás, desenvolvera.m uma série de produtos. Padres cantores e missas de carismáticos sem dúvida divulgam a fé e vendem uns CD-zinhos com bastante competência. E sem todo aquele bla-bla-blá de padre comunista.

Ainda que o catolicismo tenha a louvável característica de criticar o consumo excessivo natalino, não deixa de ser paradoxal que use do mesmo consumismo para vender sua religião no Natal, usando presépios e, claro, não criticando aqueles que presenteiam pessoas no natal com CDs de padres-cantores.

Outras religiões tem seus próprios mecanismos de “marketing”, bem como o ateísmo, certamente, os têm. A diferença aqui é como e quanto se utilizam desta necessidade que as pessoas tem de consumir um produto “pau pra toda obra” e com que resultados.

Já há algum tempo, observa-se um discurso fortemente pautado nos “direitos de consumidor” em detrimento, em maior ou menor escala, dos “direitos de cidadania”. De certo modo, é o cidadão no sistema capitalista, apenas cidadão enquanto ser que consome, e se possível, muito. O consumismo se alimenta de uma ilusão, de que resolverá todos os problemas.

Uma possível contribuição do ateísmo, então, é negar a beatitude do consumo. É se colocar contra um discurso que também está presente em muitas atividades religiosas, de solução fácil, desde que você não critique muito. Porque é impossível a pessoa ser consumista sem ter fé (entendida aqui como confiança acrítica em algo) de que realmente  aquela faca anunciada na TV vai mudar quem você é e satisfazer suas necessidades de forma absoluta.

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1 – Welcome to the World of Jean Baudrillard

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