Autor: Arnaldo Jabor
Fonte: Gazeta Digital

Muitos leitores talvez não saibam que eu também sou cineasta. Não filmo há dezoito anos, mas, agora, vou começar mais uma(mais um “abacaxi” dirão meus inimigos). Pois, vou. Chama-se “A Suprema Felicidade” e se passa no final dos anos 50, no Rio. Um pouco autobiográfico, mostra a formação de um menino dos 8 aos 20 anos, dividido entre a família deprimida e a cidade florida de musica e alegria (ainda havia o Rio delicado e poético). Nas próximas semanas vou contar de novo, como há dez anos, alguns episódios que inspiraram o filme que faço agora, como as cenas em um colégio de jesuítas onde estudei, eu e o “herói” deste “Amarcord” carioca.

“Eu pratiquei o vício solitário…” Era assim que os meninos sussurravam nas sombras do confessionário.

(“Masturbação” é uma feia palavra bombeadora que veio depois.) “Vício solitário” evocava uma tristeza doce e humilhante.

Lembro-me bem dos jovens padres tontos de tesão pelas mães dos meninos, que iam ao colégio com toaletes provocantes – muito batom, cabelos altos (todas imitavam a Marilyn Monroe ou a Jane Russell) e os padres entravam em vertigem. Eu via, via tudo, do meu canto de menino. Que faziam eles para fugir do vício solitário nas clausuras noturnas?

Minha fé vacilava. Será possível que esse reles prazer de garoto fosse tão criminoso? Já não bastavam as mulheres e meninas inatingíveis naqueles tempos? O sexo era um crime irresistível.

Mas, Deus e suas batinas negras perdiam feio para Angelita Martinez (a mulher mais “boa” do mundo) ou para Virginia Lane. Eu rezava para ter fé.

O padre examinava minhas espinhas como um guarda de fronteira: “As espinhas aumentaram nas férias, hein?…” Eu esfregava Lugolina na cara para esconder as brotoejas.

“Você sabe por que o vício solitário é um pecado mortal?”, perguntava o padre. “Porque cada vez que você o pratica, são milhões (“milhõessss!”, ele repetia) de seres humanos que iam nascer e que morrem na vala comum do papel higiênico ou na cloaca dos esgotos!”

Minha culpa era total; além de odiado por Deus, além da humilhação de ver as meninas do Colégio Jacobina passando intocadas com suas bundinhas lindas e pequenos seios, além de ver com desespero os primeiros biquinis em Copacabana, eu era um assassino de milhões!

Eu era uma espécie de Hitler sem grandeza que, além do mais, não comia ninguém. E, com a culpa na alma, matei milhões de homens no banheiro, nações inteiras foram exterminadas por minha mão assassina.

Minha fé se apagava, como uma vela pobre. O padre berrava no púlpito: “Tua alma vai para o inferno queimar no fogo… por toda a eternidade!”

“Eter-ni-daaaaade!” ecoava pelos espaços siderais e eu questionava a doutrina.

Deus me parecia violentíssimo, nos obrigando a queimar para sempre, por nada.

E aí surgia a pergunta agnóstica que acabava com a fé dos garotos:

“Deus é infinitamente bom?”, perguntávamos. “Sim, infinitamente”.

“Ele sabe tudo que vai acontecer?” “Sim…”, respondia o padre, já desconfiado.

“Então, se ele sabe que o cara vai pecar e vai para o inferno, por que ele cria o cara?” Nenhum padre me respondeu essa questão atéia, até hoje.

Mas, minha fé resistia, mesmo assim. Eu me perdia em discussões metafísicas com amigos diante do mar, minha alma se evolava para o espaço sideral, já que as doces mulatas do Rio não eram para os meus beiços.

Antes da pílula, ninguém dava. O pânico das meninas era a gravidez.

Por isso, muito se exigia dos pecadores solitários. Não havia ainda as revistas de sexo, apenas vagas suecas em monocromia azul deitadas em “Saúde e Nudismo”, se bem que já surgira o grande Carlos Zéfiro, criador da masturbação “art deco”.

As fantasias eróticas eram narrativas. Pensávamos em professoras, nas mães dos outros. Os orgasmos eram literários: tinham personagens, conflitos, apoteoses. Masturbação era texto; hoje é videoclipe.

Com as modernas revistas pornográficas, diminuiu muito a imaginação criadora dos descascadores de banana. Nossas fantasias hoje estão aquém das imagens da “indústria da sacanagem”. Somos masturbados por ela.

Um dia, chegou um padre novo, “moderno”, diziam. Esperança. O padre falava uns palavrões, falava em “esperma”, em órgãos sexuais.

Era jovem e jogava futebol conosco (muitos anos depois, vi-o sem batina vagando pelo Posto 6).

Achei que minha fé se fortaleceria, com um padre mais democrático e bom “ponta-direita”. Devia haver um Deus mais solar, não tão negro e triste como queriam os velhos jesuítas.

Até que um dia, o padre (nos falava de livros, filmes) nos contou uma das histórias cristãs mais belas (a seu ver) sobre a sexualidade juvenil.

Tínhamos o quê? Uns 13 anos.

Era a história de um rapaz escoteiro, virgem, de 18 anos, forte e bonito, que estava fazendo um acampamento no Havaí. Uma tarde, ele sai a cavalo pelas praias desertas galopando, feliz em sua castidade. Aí, resolve parar na areia branca, para descansar.

Eis que… (ouvíamos em suspense) surge uma linda mulher havaiana, seminua, vestida apenas com a saia-de-palha, coberta de flores (o padre caprichava nos detalhes), que se aproxima do nosso herói virgem na areia e começa a dançar a hula-hula diante dele, sorrindo e se oferecendo. Ouvíamos sem ar, constelados de espinhas.

O padre continuava: “Eis que nosso herói fica fascinado pela linda havaiana e, apaixonado, febril, amolece como num sonho e vai cedendo à tentação (nossa esperança aumentava). Até que a moça morena e cheia de curvas chega bem perto dele, dançando, e lhe oferece os lábios carnudos e vermelhos”. Tiritávamos de excitação.

“Foi então que se deu o milagre!”, berrou o padre, eufórico. “Nosso herói, à beira do colapso, reuniu suas últimas forças e, rezando, pulou no cavalo e saiu galopando para longe da havaiana. “E ficou casto e puro!”, bramia o padre. “Venceu a tentação!”

Nosso silêncio foi brutal e desesperado. Dava para ouvir a indignação e o ateísmo lavrando como fogo entre os alunos solitários em seus vícios.

E foi assim.

Minha fé morreu ali, naquela sala de aula jesuíta no fim dos anos 50.