RatoNo começo dos tempos, depois que deus fabricou a Terra, ele chamou o gerente de engenharia genética, Chien Zoo e disse:

__ Quero que enchas a Terra com animais. Use o que quiseres. Escamas e espinhos, bicos e couraças, asas e chifres, antenas e radares, pêlos e focinhos. Podes usar todas as cores do arco-íris, e misture-as entre si também. Faça longos narizes, olhos redondos, florestas de patas, caudas preênseis; fá-los nadas, voar, correr, cavar, emigrar, comer, foder, picar, roer, gorjear, urrar, roer, polinizar, botar, chupar, comer o plâncton, as ervas, as frutas, as raízes, as bactérias e uns aos outros. Quero-os grandes e minúsculos, simpáticos e viscosos. Faz o que tu quiseres, e crie espécies aperfeiçoadas de cada espécie anterior. Os fracassos, enterre na própria terra e transforme em fósseis, para enganar os cientistas que virão depois do pecado instituído.

Assim, Zoo trancou-se em seu laboratório, e, antes de tudo, criou a maconha. Depois, com a cabeça mais clara, começou sua obra. E muitos dias se passaram até que, satisfeito, com a mente clara e o cinzeiro cheio, ele chamou deus e mostrou que a Terra estava cheia de miados e grunhidos e guinchos e zumbidos e bater de asas e rastejar de escamas e picadas de inseto e rodasol e caçadores sem licença e malária e toucinho defumado com presunto.

Deus visitou a Terra e ficou bastante satisfeito, caminhando entre as feras. Puxou o nariz do elefante e disse que era uma ótima solução para manipulação. Admirou-se com o sistema de propulsão das medusas e verificou, com um conta-giros, se a velocidade do guepardo era mesmo de cento de vinte quilômetros por hora. Com seu olho que tudo vê, criticou os vírus, dizendo que o fato de serem pequenos não os fazia menos importantes, e disse que poderiam ser mais bonitos, mas ainda bem que ninguém os veria. Mandou baixar o volume das cigarras e disse que queria mais esponjas e menos platelmintos. Criticou pesadamente o ornitorrinco. Admirava a capacidade do engenheiro de trabalhar com peças sobressalentes, mas era claro que aquilo havia sido feito com retalhos. Disse ainda que os lemurídeos tinham aspecto triste e que era melhor realocá-los para um lugar com florestas onde fossem pouco vistos, em países pouco habitados, como a Austrália. Passou horas folheando o catálogo de borboletas, memorizando as cores e formas de cada uma delas e morreu de rir quando foi apresentado ao tucano e ao leão-marinho. Por fim, admirou-se com os dinossauros, que Zoo havia feito em sua homenagem.

__ São grandes, fortes e robustos! Resistirão até o fim dos Tempos!

Preparava-se para voltar para o indetectável céu quando notou dois casais de animais peludos brincando na relva.

__ E aqueles, o que são? Perguntou a Zoo.

__ Meu senhor, aqueles de cauda longa são os ratos, e os de cauda curta são os coelhos (pois que, naqueles tempos, os coelhos tinham orelhas pequenas).

__ São bonitos, mas é preciso diferenciá-los! Classes, subclasses, famílias, gêneros! Tornai-os diferentes e reconhecíveis um do outro! Mãos à obra!

Zoo estava cansado, pois ainda tinha alguns trabalhos inacabados, como colocar as espinhas nos peixes, fazer voar a galinha, que não ficara muito boa, e inserir pés nas focas. Mas caminhou até o relvado e disse para os animaizinhos:

__ Amigos, terei que diferenciá-los. A uma das espécies, portanto, darei orelhas belas, longas e peludas!

__ A nós não! – disseram os ratos, mordendo os coelhos para que estes se adiantassem até Zoo.

O engenheiro agarrou-os e puxou suas orelhas até deixarem-nas longas e felpudas. E à noite, enquanto os ratos corriam e brincavam pela relva, os coelhos alojaram-se em suas tocas, envergonhados de sua aparência.

Foi quando começou a cair um temporal daqueles do início do Universo. Dilúvios, montanhas desabando, vulcões explodindo, continentes separando-se. Uma fenda imensa surgiu no jardim de Zoo, escancarando-se sob os pés de ratos e coelhos. Escorregando pelas paredes da fenda, os animaizinhos gritaram por socorro, até que o engenheiro divino veio em seu auxílio, ainda segurando um pedaço de bacalhau salgado que encomendara para o departamento de engenharia e ao qual ainda não dera vida. Jogando o bacalhau para o lado, ele atirou-se à beira da fenda, tateando com as mãos em busca dos animais. Seus dedos roçaram as cabeças dos ratos, mas elas eram pequeninas e viscosas, e escorregaram para o precipício. Mas agarrando as orelhas dos coelhos, conseguiu salvá-los.

__Vistes? Disse Zoo, olhando para o abismo. Morderam e riram dos coelhos por causa de suas orelhas, e elas salvaram-nos. Agora vocês viverão sob a terra e as mulheres darão gritinhos e subirão nas cadeiras quando vos verdes. E o Homem criará a Rotto-rutter e a D.D.Drim e o caçará, enquanto os coelhos serão agraciados e acariciados pelas crianças!

__ É, mas conosco ninguém fará picadinho! Gritaram lá de baixo.

__ Calem a boca, ratos!

Zoo voltou para seu laboratório, mas a maconha tinha acabado, e ele perdeu a paciência. Virou os tocos da foca ao contrário e largou-a no frio ártico, só por desaforo. Vendo que a galinha não voava, jogou-a contra a parede e ela bateu com a cabeça. Depois disso, foi dormir, e acordou só algum tempo depois, com uma dor de cabeça chamada Darwinitite, muito crônica.

E é por isso que todo bacalhau está morto, as focas não têm pés, os ratos vivem nos esgotos e as galinhas são estúpidas.

Palavra da salvação.