Autor: Paul Kimball
Fonte: CETICISMO ABERTO

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ovniDe todas as teorias não-terrestres propostas para explicar o fenômeno OVNI, a hipótese extraterrestre (HET) sempre me pareceu a mais plausível. Eu não penso que tenha sido provada, mas acredito que é uma aposta melhor que outras sugeridas quando se olha para a evidência e a ciência.

A evidência parece indicar que pelo menos alguns casos OVNI representam uma inteligência não-humano em ação. A ciência nos diz agora que há quase certamente outros seres inteligentes na galáxia, e se eles forem mais avançados que nós, há uma chance razoavelmente boa de que eles possam chegar até aqui.

Porém, é crítico lembrar que a letra fundamental em HET é o “H” – ainda é apenas uma hipótese, e qualquer um que lhe diga que possa provar que alienígenas têm visitado a Terra além de dúvida razoável, ou até mesmo no saldo de probabilidades, está colocando a carroça bem na frente dos bois.

Além disso, porém, penso que o maior problema com os partidários da HET dentro da ufologia é que eles são tão… “limitados” em sua perspectiva. Estão convencidos de que aliens visitaram a Terra, e em muitos casos acreditam que eles ainda estão visitando Terra e interagindo com humanos de todos os modos, alguns bons e outros ruins. Eles são da escola de pensamento “feijão com arroz”, i.e. o senhor Zé ET cruzou o espaço em direção à Terra em um disco voador, de forma muito similar à qual Capitão Kirk e todos nossos outros ícones de ficção científica fazem cruzando a galáxia.

Isto é o que eu chamo ufologia “Keyhoe-iana”, porque está baseada diretamente nos pensamentos que o major Donald Keyhoe sugeriu inicialmente nos anos 1950. Está antiquado, e terrivelmente distante da ciência moderna. Presume que extraterrestres estão apenas algumas décadas, ou talvez cem ou duzentos anos mais avançados que nós, o que é altamente improvável. Presume que os ETs estão preocupados conosco, e que nós somos de alguma maneira importantes a eles, o que também é altamente improvável. Em resumo, é um ponto de vista que está baseado no que pessoas que cresceram nos primórdios da ficção científica e corrida espacial esperavam de seus alienígenas, e não no ponto de vista que os físicos e astrobiólogos modernos adotam.

As pessoas que defendem a HET como fato, como Keyhoe e seus sucessores, o mais proeminente dos quais é o físico de discos voadores, Stanton Friedman, são uma relíquia de uma época e lugar diferentes, o que é irônico quando se considera que estas pessoas comumente criticam os cientistas por não manterem a mente aberta sobre o fenômeno OVNI e por estarem presos ao passado.

Se extraterrestres estão aqui, é provável que sejam mais avançados que nós, a uma ordem de milhares de anos, não centenas. Nós seríamos a eles como formigas são a nós – abaixo de sua atenção. Isto poderia explicar bem a estranheza inerente de muitos avistamentos de OVNIs – coisas que parecem a nós como mágica, ou algo que em uma era diferente teria sido moldada em termos religiosos. Como o físico Michio Kaku notou, bem pode haver uma conversação galáctica em andamento, mas em um “idioma” que nós estamos a milhares de anos de poder verdadeiramente compreender.

Claro que, ufólogos do Fato extraterrestre seriam rápidos em apontar que há alguns humanos que estudam formigas – entomologistas, o que é bem verdade. Mas para eles eu tenho a seguinte pergunta: Quantos entomologistas passam 60 anos – ou muito mais tempo, se você for um defensor da noção de que ETs têm vindo aqui durante séculos – estudando o mesmo exato monte de formigas?

Essa idéia me parece ridícula. É uma tentativa desesperada de ajustar forçadamente nosso próprio modo de pensar sobre formas de vida potenciais que seriam muito mais avançadas que nós – e eles teriam que ser muito mais avançados para chegar aqui (ignore o que alguém como Friedman tentará lhe dizer sobre como é relativamente fácil chegar a nossos vizinhos galácticos locais, se apenas tentássemos mais e gastássemos mais dinheiro).

Novamente, eu não estou dizendo que a HET não é uma boa hipótese… em verdade, como notei antes, penso que é a mais plausível entre as várias hipóteses paranormais em oferta. É a alegação por ufólogos feijão com arroz como Friedman e Keyhoe – e charlatães como Billy Meier – de que os extraterrestres estão atravessando o espaço a bordo de discos voadores e agindo como nós faríamos, com a qual eu discordo porque essa alegação é muito mais ficção científica do que fato científico.

Defensores do Fato extraterrestre como Friedman e Keyhoe, que tentam nos convencer de que extraterrestres são basicamente como nós, não são nada diferentes de fundamentalistas religiosos que retratam Deus como um senhor anglo-saxão de cabelos brancos. Tais retratos lhe contam muito sobre as pessoas que defendem essas imagens e crenças, mas absolutamente nada sobre a possível entidade ou entidades em discussão. Os defensores do Fato extraterrestre são fundamentalistas dos discos voadores e de seu próprio modo fizeram tanto dano ao estudo científico sério do fenômeno OVNI quanto pessoas como o Dr. Edward Condon, Dr. Donald Menzel, ou Philip J. Klass.

Focalizando na idéia de que pequenos homenzinhos verdes / cinzentos têm vindo aqui em discos voadores, promotores do Fato ET prestaram um grave desserviço à busca pela verdade sobre o fenômeno OVNI e suas possíveis origens alienígenas, da mesma forma que milhares de anos de líderes religiosos têm minado a procura pela verdadeira natureza de Deus ao forçá-la em um paradigma limitado que simplesmente serviu para reforçar sua própria visão de mundo. Eles não buscaram sabedoria nem compreensão – eles proclamaram uma “resposta” que não tem respondido a nada.

A abordagem reducionista adotada pelos promotores do Fato ET, que busca ver a potencial vida extraterrestre à nossa própria imagem, é limitada em sua visão. Está mais preocupada com o que eles vêem como o destino, e sua necessidade de chegar até ele agora, quando o que nós deveríamos estar focalizando é a jornada e as maravilhas que podemos descobrir no caminho. Este é o verdadeiro sinal em tudo disto. Todo o resto é apenas ruído.

A pior coisa sobre tudo isto, porém, é a hipocrisia que você encontra em muitos dos membros supostamente mais sérios do “grupo do Fato Extraterrestre”. Eles estão convencidos de que alienígenas estão aqui e interagindo com a humanidade, mas são críticos contundentes da “exopolítica”, que simplesmente leva o posicionamento do Fato Extraterrestre até a sua conclusão lógica.

Exopolítica, de acordo com o Dr. Michael Salla, um de seus proponentes mais conhecidos, é:“o estudo dos indivíduos, instituições políticas e processos fundamentais associados com a vida extraterrestre… a exopolítica se concentra nas implicações políticas de uma presença extraterrestre conhecida por entidades quasi-governamentais clandestinas que mantêm o conhecimento da presença em segredo do público geral, funcionários políticos eleitos e até mesmo oficiais militares sêniors. A evidência que apóia [estas afirmações] é maciça em extensão e mostra que a tomada de decisão é restrita a uma base limitada a aqueles que ‘precisam saber’”. 

Tire a palavra “exopolítica” da equação e isso parece algo que Friedman diria. Realmente, se você ouvir Friedman falar tantas vezes quanto eu o fiz, notará a semelhança nos temas principais – alienígenas estão aqui, o governo está encobrindo o conhecimento desse fato e nós, o povo, temos o direito de saber a verdade. Em seu website, Salla em seus “cursos de exopol” usa mesmo o lema “preparando-nos para nossa graduação cósmica”, o que ecoa diretamente o mantra de décadas de Friedman de que talvez algum dia estaremos prontos para nos qualificarmos para o jardim de infância cósmico.

A maior objeção de Friedman à exopolítica, pelo menos em público, parece ser o fato de que eles não são terrivelmente exigentes para vetar suas supostas testemunhas e denunciantes. Nesse respeito, ele tem bastante razão. Porém, como mais de um exopol me apontou, Friedman tem uma história de promover suas próprias testemunhas muito duvidosas (Gerald Anderson vem à mente de pronto, seguido de perto por Glenn Dennis), e casos (Aztec, Flatwoods, guerras aéreas de discos voadores nos anos cinqüenta, talvez mesmo Roswell).

Francamente, enquanto eu discordo com a própria premissa que fundamenta o sistema de crenças da exopolítica (de que pelo menos alguns OVNIs foram provados como sendo espaçonaves extraterrestres), quanto mais penso nisto, mais acho que os exopols são mais intelectualmente honestos que pessoas como Friedman que concordam com eles em termos gerais, mas fazem pouco ou nada para tentar conduzir a uma mudança política de fato. Os exopols estão certos – se você acredita que aliens estão aqui e o governo está encobrindo isto, então este é um assunto político da mais alta ordem e não mais um tema científico.

Friedman é o Poderoso Chefão de facto da Exopolítica – em grande parte, ele criou a “família” que é o Fato Extraterrestre moderno, a ufologia do “Watergate Cósmico”, mas como Vito Corleone, ele é incapaz de tomar o que ele criou e levá-lo a sua próxima fase lógica. Realmente, como o Don, é uma fase com a qual ele não quer nenhuma relação, até mesmo enquanto outros ao redor dele, que ele inspirou, reconheçam as implicações lógicas e inevitáveis do que ele tem dito todos estes anos e estejam preparados para agir a respeito, não importe o quanto ele proteste.

Porém, o verdadeiro escândalo é que Friedman, como outros defensores do Fato Extraterrestre, emprega dois pesos e duas medidas sem absolutamente nenhum senso de ironia quando se encontram com pessoas que questionam sua posição. Qualquer um que favoreçam que seja sujeitado a um exame crítico é vítima de “assassinato de caráter”, enquanto as pessoas de quem eles não gostam, ou que não apóiam, como Bob Lazar, ou Philip Corso, ou até mesmo o Dr. J. Allen Hynek, podem ser atacados (no universo de Friedman, Hynek é “um ufólogo apologista”). Quando você menciona o Dr. Jacques Vallee a eles, eles se desesperam ainda mais em seus ataques. Qualquer coisa que ameaça arruinar o sistema de crenças que construíram resulta no equivalente ufológico da Inquisição espanhola.

Pessoas que buscam uma abordagem realmente científica ao fenômeno OVNI, do tipo que foi promovida durante anos por Hynek, Vallee e Dr. James McDonald, deveriam olhar em outro lugar. Por quê? Porque Hynek, McDonald e Vallee nos deixaram com miríade de investigações de caso, novas teorias e formas de olhar para o fenômeno OVNI, sistemas de classificação de avistamentos e outros legados importantes. Até mesmo pessoas como o antigo colega de classe de Friedman, o Dr. Carl Sagan, nos deixaram com um senso de fascinação sobre o prospecto de vida de ET, embora ele não fosse nenhum proponente da HET. No outro lado, os defensores do Fato Extraterrestre nos deixaram com Roswell, MJ-12, Aztec, contos de grandes guerras de discos voadores entre a USAF e OVNIs, e outras histórias que pertencem a uma antologia de ficção científica, não a uma discussão séria do que o fenômeno OVNI poderia ou não representar.

O lamentável é que alguém como Friedman poderia ter feito tanto mais – se ele apenas, como tantos outros de seus companheiros no fato extraterrestre, não tivesse deixado seu desejo de acreditar subjugar suas faculdades críticas. As pessoas que querem o evangelho antigo de discos voadores / conspiração se sentirão em casa com eles, porque o que eles oferecem é confortável e fornece um senso de continuidade e familiaridade, e mesmo fraternidade. Porém, o que não oferece é uma busca honesta pela verdade sobre o fenômeno OVNI.

Nunca ofereceu.

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Paul Kimball é um ufólogo e cineasta canadense. Escreve em “The Other Side of Truth”. Esta tradução de sua coluna publicada originalmente em Alien Worlds foi gentilmente autorizada, e é oferecida em favor de um ceticismo aberto que possa ecoar entre aqueles que defendam a hipótese extraterrestre.